Há certas produções cinematográficas que funcionam como uma espécie de “comida de conforto” para a alma: não importa quantas vezes você assista, as piadas parecem ficar mais engraçadas e os detalhes cômicos ganham novas camadas. Revisitar o norbit filme atualmente é embarcar em uma viagem nostálgica por um tipo de humor físico e visual que marcou a década de 2000. A obra, conduzida pela genialidade camaleônica de Eddie Murphy, é uma coleção de esquetes interligados que entregam sequências de puro absurdo, garantindo gargalhadas sinceras mesmo para quem já sabe de cor as falas dos personagens.
O inesquecível desastre no parque aquático
Se tivéssemos que eleger uma cena que define a essência visual desta comédia, seria, sem dúvida, a visita ao parque aquático. É um exemplo clássico de slapstick (comédia física) levado ao extremo. O momento em que Rasputia, com toda a sua confiança inabalável e traje de banho inconfundível, decide descer pelo toboágua, desafia qualquer lei da física e da segurança. A construção da cena é magistral: a expectativa dos outros banhistas, o medo nos olhos das crianças e a descida em câmera lenta criam uma tensão cômica que explode — literalmente — quando ela atinge a piscina.
Não é apenas o impacto na água que gera o riso, mas a reação em cadeia que o evento provoca. A piscina esvaziando instantaneamente e lançando os outros personagens para fora é um exagero cartunesco que remete aos desenhos animados clássicos. Ao rever essa sequência hoje, percebe-se o cuidado da direção em transformar um momento que poderia ser apenas grosseiro em uma coreografia de caos perfeitamente cronometrada. É o ápice da caracterização da personagem como uma força da natureza imparável, e continua sendo um dos clipes mais compartilhados da internet quando se fala sobre o longa.
A saga automotiva e o conversível minúsculo
Outro ponto alto que merece destaque na reexibição é a relação de Rasputia com seu automóvel. A imagem visual dela espremida dentro de um pequeno conversível é, por si só, uma piada visual recorrente que nunca perde a graça. O esforço físico para entrar e sair do veículo, somado à maneira agressiva como ela dirige pelas ruas da cidade pacata, constrói a personalidade dominadora da vilã de forma hilária.
- O contraste de tamanho: A escolha de um carro compacto para uma personagem tão imponente não foi acidental; serve para sublinhar o quanto ela “não cabe” no mundo convencional ao seu redor.
- A “road rage”: As interações dela com outros motoristas e pedestres enquanto dirige mostram o talento de Murphy para a improvisação e para criar diálogos rápidos e cortantes.
A cena em que ela para o carro bruscamente ou faz curvas fechadas, jogando o pobre e passivo protagonista de um lado para o outro no banco do carona, resume perfeitamente a dinâmica tóxica e absurda do casal. É nesses pequenos detalhes de interação dentro do veículo que o público percebe a resignação cômica do personagem-título diante da fúria de sua esposa.
O discurso de casamento e a “sabedoria” do Sr. Wong
Eddie Murphy não brilha apenas como o casal principal, mas também na pele do Sr. Wong, o dono do orfanato e restaurante local. As cenas protagonizadas por este terceiro personagem trazem um tipo de humor diferente, baseado em franqueza brutal e conselhos politicamente incorretos. Um dos momentos mais icônicos é, sem dúvida, o discurso que ele faz durante a festa de noivado/casamento. O brinde, que deveria ser um momento de celebração, transforma-se em um monólogo constrangedor e hilário sobre erros e escolhas de vida.
Ao rever o filme, nota-se como a maquiagem prostética permite que Murphy adote expressões faciais completamente distintas para Wong. A maneira como ele entrega as falas, misturando uma severidade paternal com um desprezo cômico pelas situações absurdas que o cercam, é genial. O discurso sobre a “baleia”, embora ácido, é um daqueles momentos em que o roteiro chuta o balde da sensibilidade para abraçar a comédia de choque. É uma cena que, assistida hoje, serve como um lembrete da audácia que as comédias daquele período possuíam, não tendo medo de criar personagens deliberadamente caricatos para servir à narrativa.
O jantar de domingo e os Irmãos Latimore
Por fim, não podemos esquecer a dinâmica familiar dos Latimore. As cenas de refeição, especialmente o “café da manhã reforçado” ou os jantares, são um espetáculo à parte. A introdução dos irmãos de Rasputia, Big Jack e Earl, adiciona mais peso — literal e figurativo — à vida sofrida do protagonista. A forma como eles devoram a comida, ignorando qualquer etiqueta, enquanto intimidam o cunhado, cria um ambiente de opressão que é, paradoxalmente, muito engraçado.
A interação entre os três irmãos Latimore demonstra uma sintonia perfeita. Eles funcionam como uma unidade de intimidação, completando as frases uns dos outros e compartilhando da mesma visão distorcida de mundo. A cena do peru de Ação de Graças é particularmente memorável pela voracidade apresentada e pela total falta de noção da família. Ao reassistir, o espectador consegue captar as microexpressões de pavor no rosto do protagonista, que percebe que não está apenas casado com uma mulher difícil, mas refém de um clã inteiro. Esses momentos de conjunto elevam a produção, mostrando que o filme não depende apenas de um personagem, mas de todo um ecossistema de figuras excêntricas que fazem desta obra um clássico do humor besteirol.













