A morte de uma menina de 9 anos em Campo Grande, nesta quarta-feira (4), acendeu um alerta preocupante para pais e educadores sobre os chamados “desafios virais” da internet. A suspeita é de que a criança tenha participado do chamado desafio do desodorante, prática perigosa que circula principalmente em redes sociais e incentiva a inalação de aerossóis.
Segundo o relato, ela apresentava lábios roxos e não reagia. O pai ainda tentou reanimá-la com respiração boca a boca e massagem cardíaca. Durante a tentativa de socorro, a criança chegou a vomitar, mas não voltou a respirar.
Então, ela foi levada por meios próprios ao UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Universitário, onde equipes médicas também tentaram reanimação, sem sucesso. O óbito foi constatado por volta das 15h de ontem. O caso foi registrado como morte decorrente de fato atípico e exames necroscópicos devem apontar a causa da morte.
A suspeita é de participação no chamado desafio do desodorante e reacende o alerta de especialistas sobre os chamados “desafios virais” da internet, conteúdos que se espalham rapidamente nas redes sociais e incentivam crianças e adolescentes a realizar ações de risco em busca de curtidas, visualizações e popularidade online.
Entre os exemplos mais conhecidos estão desafios como o do desodorante, do Superman, do desmaio e da tarja preta, que têm se espalhado em velocidade crescente nas plataformas digitais. O que antes era visto como uma prática isolada, muitas vezes copiada de um influenciador ou youtuber, hoje passou a circular de forma organizada em grupos nas redes sociais.
Especialistas explicam que muitos desses desafios são compartilhados por meio de links que levam os adolescentes a grupos privados, onde os participantes recebem propostas de “brincadeiras” que envolvem comportamentos extremos. Em nome da visibilidade na internet, são sugeridas práticas perigosas como ingestão de grandes quantidades de medicamentos, inalação de aerossóis, sufocamento e até automutilação.
Estudos também indicam que as hashtags utilizadas para divulgar esses conteúdos combinam frequentemente o nome do desafio com termos ligados à saúde mental, estratégia que amplia o alcance entre adolescentes psicologicamente vulneráveis.
Um dos exemplos mais recentes é o chamado “Desafio do Paracetamol”, que ganhou repercussão internacional após a internação de várias crianças entre 11 e 14 anos com intoxicação no Hospital Materno-Infantil de Málaga, na Espanha, caso destacado pelo jornal espanhol El País.
Levantamento do Instituto DimiCuida aponta que, entre 2014 e 2025, ao menos 61 crianças e adolescentes com idades entre 7 e 18 anos morreram no Brasil após participarem de desafios compartilhados nas redes sociais. Os dados são compilados a partir de casos divulgados na imprensa ou relatados por famílias que procuram organizações da sociedade civil dedicadas à proteção de crianças e adolescentes. O Ministério da Saúde não possui estatísticas oficiais específicas sobre mortes ou internações relacionadas diretamente a esse tipo de prática.
Além disso, especialistas alertam que muitos desafios continuam circulando nas redes mesmo após denúncias e remoções, muitas vezes adaptados em novas versões. Em alguns casos, práticas como o desafio do desodorante evoluem para variações que envolvem queimar a pele com aerossol ou pressionar sprays até que explodam.
O que fazer? Alguns comportamentos podem indicar que crianças ou adolescentes estejam envolvidos em desafios perigosos, como isolamento repentino, irritabilidade frequente, dores de cabeça intensas e uso constante de roupas que cubram todo o corpo, possivelmente para esconder manchas ou marcas. Embora esses sinais não confirmem necessariamente a participação em desafios, especialistas afirmam que eles devem servir como alerta para pais, familiares e educadores.
O crescimento desse tipo de conteúdo ocorre em um cenário de acesso cada vez mais precoce à internet. Estudo do Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância aponta que 44% das crianças de até dois anos já estão online no Brasil. Já a pesquisa TIC Kids Online Brasil indica que cerca de 24,5 milhões de pessoas entre 9 e 17 anos utilizam internet no país, o que representa 93% dessa faixa etária.
Diante desse cenário, especialistas defendem que adolescentes com menos de 14 anos não tenham acesso irrestrito a celulares e que o uso das redes sociais seja supervisionado por pais ou responsáveis. Quando o acesso ocorre, a orientação é que sejam utilizados aplicativos de controle parental ou que sejam estabelecidos acordos claros sobre o tempo e o tipo de conteúdo consumido na internet.













