Os produtores que fornecem cana-de-açúcar para as usinas da Raízen estão preocupados com a situação da companhia, afirmou ao Valor José Guilherme Nogueira, presidente da Organização das Associações de Produtores de Cana (Orplana). A empresa, controlada por Cosan e Shell, protocolou, na noite de terça-feira (10/3), um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar dívidas que somam R$ 65 bilhões.
A Raízen, que produz energia renovável, açúcar e etanol e atua na distribuição de combustíveis, é a maior processadora de cana do país. Nesta safra, a empresa processou 70 milhões de toneladas de matéria-prima, o que corresponde a mais de 10% de todo o volume do Centro-Sul. Estima-se que fornecedores terceirizados, com ou sem contrato, respondam por metade desse volume — a empresa não confirma. Ao todo, a companhia tem 1,1 mil fornecedores de cana.
Segundo Nogueira, os fornecedores que vendem cana para a Raízen no mercado físico (spot) — ou seja, sem contrato de longo prazo — estão cautelosos e já avaliam se vão ou não vender para a Raízen na próxima safra (2026/27), que começa oficialmente em abril. “Quem não tem contrato está pensando em seu relacionamento com a Raízen”, afirmou o dirigente à margem de evento da consultoria Datagro em Ribeirão Preto (SP)
Apesar disso, a notícia de que a empresa apresentou um pedido de recuperação extrajudicial para conseguir tempo para negociar sua dívida bilionária com seus credores financeiros deu um alívio aos fornecedores. O sinal, de acordo com um produtor ouvido pelo Valor, é de que a empresa está buscando uma solução que deve preservar o relacionamento com os fornecedores de cana, elemento-chave para garantir matéria-prima e geração de caixa operacional.
A percepção, porém, é de que a Raízen não tem muito tempo para prolongar as negociações. Os produtores temem que, se as conversas com os credores financeiros não evoluírem, a empresa acabe sendo empurrada para uma recuperação judicial, o que colocaria todos os seus fornecedores de cana como credores com os quais a empresa teria que renegociar.
Nessa hipótese, os pagamentos atrasariam, já que os fornecedores teriam que se submeter à assembleia geral de credores e ao longo processo de negociação. “O produtor está cauteloso, com medo de entrar na lista [de credores]”, disse a fonte.
Um produtor de São Paulo afirmou que, nos últimos meses, cresceu a queda de braço com a Raízen nas renegociações de contratos de fornecimento de cana para a empresa. Segundo ele, há produtores que estão preferindo postergar a renovação para aguardar um cenário mais claro.
Cinco grupos detêm mais da metade da dívida financeira que a Raízen tem com o mercado, de acordo com a lista à qual o Valor teve acesso. O maior credor financeiro da Raízen é Bank of New York Mellon (BNY), com R$ 18,78 bilhões em créditos.
Na sequência estão os bondholders, que detêm conjuntamente R$ 7,49 bilhões em créditos; a True Securitizadora, que intermediou emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio, é credora de R$ 6,43 bilhões; a corretora Pentágono DTVM, com R$ 6,35 bilhões; e o BNP Paribas, com R$ 3,06 bilhões em créditos.
Estes credores têm, conjuntamente, R$ 42 bilhões em créditos da Raízen, de um total de R$ 65 bilhões em créditos financeiros com terceiros, mencionados pela empresa em fato relevante sobre o pedido de recuperação extrajudicial.
Alguns analistas do mercado financeiro acreditam que alguns títulos de dívida da Raízen ainda trocarão de mão e serão adquiridos por agentes que são focados em créditos “distressed”.
Segundo um analista, parte dos credores da Raízen só têm títulos da companhia porque a empresa era grau de investimento, e agora terão que se desfazer dos créditos porque não têm mandato para continuar com créditos agora em grau especulativo _ as agências de rating rebaixaram as notas da Raízen nas últimas semanas diante da demora dos sócios em apresentar uma solução de capitalização para a companhia.
Confira a lista dos 30 maiores credores da Raízen
- Bank of New York Mellon – R$ 18,78 bilhões
- Grupo ad hoc de bondholders – R$ 7,49 bilhões
- True Securitizadora – R$ 6,43 bilhões
- Pentágono DTVM – R$ 6,35 bilhões
- BNP Paribas – R$ 3,06 bilhões
- Rabobank – R$ 2,24 bilhões
- Bradesco – R$ 2,08 bilhões
- SMBC – R$ 1,95 bilhão
- Scotiabank – R$ 1,59 bilhão
- Santander – R$ 1,27 bilhão
- Itaú BBA – R$ 1,24 bilhão
- MUFG – R$ 1,18 bilhão
- BBVA – R$ 1,05 bilhão
- Banco do Brasil – R$ 1,03 bilhão
- Santander Corretora – R$ 878 milhões
- Bank of America – R$ 912 milhões
- Opea Securitizadora – R$ 906 milhões
- US Bank National Association – R$ 902 milhões
- Bank of China – R$ 795 milhões
- JPMorgan – R$ 789 milhões
- BNP Paribas Brasil – R$ 606 milhões
- Morgan Stanley – R$ 584 milhões
- HSBC – R$ 448 milhões
- Citibank – R$ 433 milhões
- Bank of America Merrill Lynch – R$ 389 milhões
- Crédit Agricole CIB – R$ 271 milhões
- DXC Comercializadora – R$ 170 milhões
- Itaú Unibanco (derivativos) – R$ 38 milhões
- Citibank NA – R$ 33 milhões
- Rabobank (derivativos) – R$ 11 milhões












