Mais de 140 crianças e adolescentes em Mato Grosso do Sul perderam suas mães para o feminicídio nos últimos dois anos, segundo dados do Ministério Público do Estado. A maioria precisa recomeçar a vida sem a principal referência dentro de casa.
O Conselho Tutelar assume a busca por familiares que possam cuidar dessas crianças. Na maioria dos casos, avós ou tias ficam responsáveis pela guarda. Além disso, filhos de vítimas têm direito a benefícios garantidos por lei, como a pensão especial do Governo Federal, que paga um salário mínimo por mês até os 18 anos.
A história de cinco irmãos
Cinco irmãos, com idades entre 1 e 16 anos, ficaram órfãos após o feminicídio da mãe. A avó, que prefere não se identificar, assumiu a responsabilidade de cuidar de todos.
“Foi muito difícil, tem sido muito difícil, mas a gente precisa seguir em frente, a vida continua, as crianças necessitam de acolhimento, de cuidado.” Ela contou que o crime aconteceu porque o ex-marido da filha não aceitava o fim do relacionamento.
“É um sentimento de revolta, com o que aconteceu, com a maldade da pessoa, a pessoa ser tão mal a ponto de tirar a vida de outra pessoa, é muita maldade no ser humano. Então, assim, isso gera na gente muita tristeza profunda.”
Reconstruindo a vida
Para as famílias que ficam, o desafio é reconstruir a rotina e garantir proteção e cuidado às crianças. A avó dos cinco irmãos explica como lida com a dor e o papel de mãe que precisou assumir:
“A vida continua, e a dor, infelizmente, ela não vai deixar de existir, mas é preciso pedir para Deus, muita fé, muita esperança de dias melhores e força para prosseguir. Eu falo para as crianças que eu não sou a mãezinha delas, que eu sou a avó, a titia, mas tem hora que elas me chamam de mãe, então eu atendo como mãe também.”
Apoio psicológico e social
Além do suporte financeiro, as crianças precisam de acompanhamento psicológico. Especialistas alertam que muitas desenvolvem transtorno de estresse pós-traumático, depressão ou transtorno de ansiedade.
O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, por meio do Centro Especializado de Atenção às Vítimas de Crimes e Atos Infracionais (CEAVE), oferece acolhimento, orientações e encaminhamentos. A juíza Gabriela, coordenadora do CEAVE, explica que o agressor muitas vezes é a figura paterna da criança, que pode estar presa ou foragido.
“A criança perde toda aquela estrutura familiar que ela estava acostumada, e a gente tenta dar suporte rápido, encaminhar para psicólogo, escola e regularizar a guarda com a Defensoria Pública para garantir os direitos da criança”, disse a juíza.
Jéssica Echeverria Leite, profissional do centro, destaca a importância do atendimento cuidadoso para evitar a revitimização:
“Realizamos primeiramente o acolhimento com uma escuta ativa, muito cuidadosa, de forma respeitosa com a criança e seu responsável. A revitimização seria essa vítima passar novamente por uma situação de violência, de violação de direitos. E isso é o que nós pretendemos que não aconteça.”












