Assassinado pela ditadura: a menos de três meses de se completarem 50 anos da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, um novo relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos aponta que JK foi vítima de uma ação da ditadura militar, contrariando a versão oficial sustentada por décadas de que sua morte teria sido causada por um acidente automobilístico.
O documento, elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, relatora do caso na comissão, está em fase final de análise pelos conselheiros e deve ser votado em breve. Com mais de 5 mil páginas, incluindo anexos, o relatório reúne investigações anteriores e sustenta que a morte de JK, em 22 de agosto de 1976, foi violenta e decorrente de perseguição política.
Reviravolta em caso histórico
A possível conclusão marca uma reviravolta em um dos episódios mais controversos da história recente do país. A CEMDP, órgão de Estado criado em 1995, tem como função reconhecer mortes e desaparecimentos ligados à repressão política entre 1961 e 1988, além de emitir pareceres e buscar esclarecimento histórico.
A decisão de reabrir o caso reacendeu debates que se arrastam há décadas. Na época, o carro em que JK estava, um Opala dirigido por seu motorista Geraldo Ribeiro, colidiu com uma carreta na Via Dutra após perder o controle. Ambos morreram no local.
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Versões divergentes
Investigações conduzidas durante a ditadura e posteriormente pela Comissão Nacional da Verdade concluíram que o acidente teria sido causado após uma suposta colisão com um ônibus ao tentar uma ultrapassagem.
No entanto, outras apurações — incluindo comissões estaduais da verdade e estudos independentes — levantaram a hipótese de atentado político. Essas investigações apontam que não houve contato com o ônibus e sugerem que o veículo pode ter sido sabotado ou que o motorista tenha sido alvo de ação externa.

Perícia e falhas nas investigações
Um dos principais elementos considerados no novo relatório é um inquérito do Ministério Público Federal concluído em 2019. Embora não tenha comprovado o atentado, o documento identificou falhas graves nas investigações da época, como ausência de exames toxicológicos completos e inconsistências nos laudos periciais.
Uma análise técnica conduzida pelo engenheiro Sergio Ejzenberg reforçou essas dúvidas ao descartar, com base em simulações e reavaliações, a hipótese de colisão com o ônibus. Segundo ele, os laudos utilizados anteriormente eram inconsistentes.
Contexto político reforça suspeitas
O relatório também destaca o contexto político da época. Cassado pelo regime militar em 1964, JK era uma figura central da oposição e integrante da Frente Ampla. Seu nome teria sido citado em comunicações ligadas à Operação Condor, aliança entre ditaduras sul-americanas para eliminar adversários políticos.
Esse cenário reforça a tese de que sua morte pode ter sido resultado de uma ação coordenada do regime.
JK foi assassinado pela ditadura: os desdobramentos
Caso aprovado, o parecer da comissão poderá reconhecer oficialmente JK como vítima da ditadura. Isso abriria caminho para a retificação de sua certidão de óbito e também da de seu motorista, incluindo a causa da morte como violenta e ligada ao Estado.
Diferentemente de outros casos, como o da estilista Zuzu Angel, não haverá implicações financeiras, já que o prazo legal para pedidos de indenização já expirou. O objetivo central da reavaliação é o esclarecimento histórico.
Nos bastidores, a tendência é de aprovação do relatório pela maioria dos conselheiros, embora haja divergências internas. Integrantes ligados ao Ministério da Defesa e ao Ministério Público demonstraram cautela quanto à reabertura do caso.










