A decisão da China de impor novas cotas e sobretaxa de 55% sobre a carne bovina brasileira a partir de 1º dia do ano deve provocar impactos imediatos no mercado, com risco de rompimento de contratos, queda nos preços internos e pressão sobre produtores e frigoríficos. O alerta é do advogado empresarial Eliseu Silveira, que detalhou ao Jornal Opção os efeitos da medida e os caminhos possíveis para o setor
Para Silveira, o primeiro efeito será o rompimento de contratos entre produtores e frigoríficos. “O produtor rural que se comprometeu a entregar 500 cabeças de gado por ano pode sofrer impacto direto, porque o frigorífico pode não ter condições de manter o acordo. Isso porque o preço da carne no Brasil tende a baratear. A China paga valores competitivos e ajuda a equilibrar nossa balança comercial. Com a sobretaxa, o produto brasileiro ficará mais caro no prato do chinês e haverá diminuição do consumo”, explicou.
Ele acrescenta que, com a retração da demanda externa, o preço da carne no Brasil pode cair. “Para o consumidor final, provavelmente a carne vai ficar mais barata. Não no primeiro momento, mas pode vir a ficar. O problema é que isso desestimula os produtores e pode gerar escassez de gado, elevando os preços a níveis incontroláveis no médio prazo”, disse.
Silveira lembra que os custos da pecuária são dolarizados, vacinas, vitaminas e ração, e que a queda no preço interno pode levar muitos produtores à quebra. “O produtor rural está acostumado a engordar o gado e vender a 25 arrobas, mas em 2026 não será assim. Se o preço cair demais, ele terá que negociar com bancos para não tomar prejuízo, porque os contratos de financiamento continuam com os mesmos juros e taxas”, destacou.
*Organização e estratégias para enfrentar a crise*
O advogado defende que a agropecuária brasileira precisa abandonar práticas amadoras. “Em 2026, já não cabe uma criação amadora. É preciso ter uma criação profissional, com todos os custos na ponta do lápis. O mecanismo mais usado deve ser a renegociação de dívidas ou contratos antes do vencimento. Depois que vence, a taxa de juros é diferente”, disse.
Ele detalha três caminhos possíveis: renegociação antecipada de contratos com bancos e frigoríficos; prolongamento de dívida rural para quem já venceu contratos e está atrasado; e recuperação judicial ouextrajudicial para casos extremos, quando o endividamento ultrapassa 50% do faturamento.
“Renegociar é melhor. Depois, alongar a dívida conforme o manual de crédito rural. E só se nenhum dos dois for plausível, pensar em recuperação judicial ou extrajudicial”, afirmou.
*Pronaf, BNDES e linhas de crédito*
Silveira destaca que os produtores devem ficar atentos às linhas de crédito disponíveis. “É importante o agropecuarista ficar de olho nos Pronafes, nos programas do governo, e também nas linhas do BNDES. Talvez seja possível pegar uma taxa de juros melhor e pagar uma dívida mais cara. Mas é preciso fazer análise contábil e financeira para ver se compensa”, explicou.
Ele lembra que em 2025 já houve casos de recuperação judicial de agropecuaristas. “Eu mesmo administro judicialmente uma agropecuária que protocolizou pedido de RJ. Quando o produtor é organizado e coloca tudo na ponta da caneta, ele sabe exatamente o ponto em que terá prejuízo e pode se preparar com um plano preventivo”, disse.
*Governo e apoio ao setor*
Questionado sobre o papel do governo brasileiro, Silveira disse que a atual gestão não é amigo do produtor rural, “tem uma aversão”, as alternativas são outras. “Os planos Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar] e BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento] sempre existiram, com garantias lastreadas em terra, mas isso é política de câmbio e de mercado, não de governo”, apontou.
*Mudanças estruturais na cadeia da carne*
Na visão do advogado, a medida chinesa pode acelerar mudanças estruturais. “Se a China mantiver esse embargo, teremos que encontrar novos consumidores. É difícil achar alguém tão grande quanto a China. A Índia seria ideal, mas lá a vaca é Deus, então não vão comer. Sobra União Europeia, Estados Unidos e, em menor escala, África. Mas a África não tem condição financeira de comprar carne brasileira. Ficaremos codependentes dos EUA e da União Europeia”, avaliou.
Ele alerta que os criadores mais profissionalizados, com custos elevados, podem reduzir o ritmo de produção. “Não vão deixar de existir, mas vão tirar o pé do acelerador. As mudanças serão profundas”, disse.
*Alerta ao consumidor e ao produtor*
Silveira reforça que o consumidor deve estar atento. “Provavelmente a carne pode ficar mais barata, mas isso não é uma notícia boa ao médio prazo. O Brasil tem uma visão imediatista, resolve o problema do umbigo agora, mas esquece o futuro. Isso pode desestimular a criação de animais e gerar problemas sérios”, afirmou.
O advogado também alerta os produtores rurais. “Eles precisam ficar atentos às medidas de mercado. Se não se preocuparem agora, podem ter problemas com contratos bancários e de fornecimento. Os que exportam para a China não terão a mesma taxa de cumprimento”, pontuou.
Para Eliseu Silveira, o cenário exige cautela e planejamento. “O produtor que está no campo precisa entender que 2026 não será um ano comum. A sobretaxa chinesa pode baratear a carne no curto prazo, mas traz riscos sérios de desorganização da cadeia produtiva e de quebra de contratos. O caminho é renegociar dívidas, profissionalizar a gestão e buscar alternativas de mercado”, concluiu.
Foto: Divulgação/Abiec












