{"id":107630,"date":"2019-02-14T08:13:04","date_gmt":"2019-02-14T11:13:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ocorreionews.com.br\/acervo-correio\/?p=107630"},"modified":"2019-02-14T08:13:04","modified_gmt":"2019-02-14T11:13:04","slug":"coluna-do-percival-trotsky-por-que-os-comunistas-detestam-o-filme","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ocorreionews.com.br\/acervo-correio\/?p=107630","title":{"rendered":"Coluna do Percival: Trotsky, por que os comunistas detestam o filme?"},"content":{"rendered":"<p>Assisti aos oito cap\u00edtulos da s\u00e9rie do Netflix sobre Trotsky sabendo que se tratava da adapta\u00e7\u00e3o de uma obra liter\u00e1ria e que, portanto, n\u00e3o era rigorosamente hist\u00f3rica quanto aos fatos, frases e condutas. Meu interesse fixou-se no not\u00e1vel desempenho do ator russo Konstantin Khabenskiy e na singularidade de uma narrativa sobre a revolu\u00e7\u00e3o ir al\u00e9m da tomada do poder pelos bolcheviques. Por qu\u00ea? Porque esse costuma ser o momento em que o discurso dos comunistas come\u00e7a a dar sinais de dificuldade, a aula termina, a conversa acaba. O Terror Vermelho que se seguiu \u00e9 imensamente constrangedor a quem preserve, em si, um fiapo de humanidade. Dele participaram e com ele se comprometeram os tr\u00eas grandes l\u00edderes \u2013 L\u00eanin, Trotsky e Stalin.<\/p>\n<p>A \u201cnarrativa\u201d revolucion\u00e1ria, entanto, precisava salvar algu\u00e9m nesse imbr\u00f3glio e o escolhido foi Trotsky. Ele seria o comunista virtuoso, a quem n\u00e3o se poderiam atribuir as pervers\u00f5es, o estilo de vida e as motiva\u00e7\u00f5es que levaram a tais genoc\u00eddios. Stalin, por sua vez, costuma ser escalado para o papel de bad boy de toda a trag\u00e9dia social e humana da revolu\u00e7\u00e3o, que se justificou pela fome, instituiu a mis\u00e9ria, saqueou o entorno e nem assim sobreviveu.<\/p>\n<p>Da\u00ed porque os comunistas odiaram a s\u00e9rie da Netflix. Eles necessitam que algu\u00e9m \u2013 Trotsky \u2013 escape \u00e0 amarga e f\u00e9tida mistura de terrorismo, banditismo, selvageria e deforma\u00e7\u00e3o moral que marcou o evento h\u00e1 tanto tempo cultuado. Pergunto: n\u00e3o s\u00e3o de seu her\u00f3i, por\u00e9m, estas palavras proferidas j\u00e1 em 1\u00ba de dezembro de 1917, dirigindo-se aos delegados do Comit\u00ea Central dos Sovietes?<\/p>\n<p>\u201cEm menos de um m\u00eas, o terror, do mesmo modo como ocorreu durante a Grande Revolu\u00e7\u00e3o francesa vai ganhar formas bastante violentas. N\u00e3o ser\u00e1 mais somente a pris\u00e3o, mas a guilhotina \u2013 essa not\u00e1vel inven\u00e7\u00e3o da Grande Revolu\u00e7\u00e3o francesa, que tem como maior vantagem reconhecida a de encurtar o homem em uma cabe\u00e7a \u2013 que estar\u00e1 pronta para os nossos inimigos\u201d. (Delo Naroda \u2013 \u201cA Causa do Povo\u201d, 3\/12\/1917).<\/p>\n<p>Gentil, o mo\u00e7o. Em 1919, em \u201cLa defense du terrorisme\u201d, conforme lido em \u201cO Livro Negro do Comunismo, pag.887, ele faz um diagn\u00f3stico das duas classes sociais, o proletariado ascendente e a burguesia decadente. Na vis\u00e3o de Trotsky, esta \u00faltima \u00e9 t\u00e3o apegada ao poder que, em sua queda, arrastaria consigo a sociedade inteira. Portanto, era preciso elimin\u00e1-la. Assim:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 nossa obriga\u00e7\u00e3o arranc\u00e1-la do poder e cortar-lhe as m\u00e3os. O terror vermelho \u00e9 a arma utilizada contra uma classe condenada a perecer e que n\u00e3o se resigna a isso.\u201d<\/p>\n<p>Assistam a s\u00e9rie, apesar de ser uma hist\u00f3ria densa, pesada, com fantasias e muitas intercala\u00e7\u00f5es que brotam da imagina\u00e7\u00e3o do roteirista ou do romance hist\u00f3rico em que se baseia, vale o tempo gasto. D\u00e1 muito que pensar. Exibe o risco inerente \u00e0s utopias. Por vezes d\u00f3i constatar que o filme parece reproduzir di\u00e1logos atuais de nosso ambiente intelectual&#8230; Noutras ocasi\u00f5es, sua atualidade surge ao mostrar que, nos primeiros movimentos da revolu\u00e7\u00e3o, os comunistas cumpriram o repetido papel de atacar os pres\u00eddios e libertar os presos. No Brasil h\u00e1 gente ansiosa por fazer isso com a caneta.<\/p>\n<p>_______________________________ * Percival Puggina (74), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, \u00e9 arquiteto, empres\u00e1rio e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no pa\u00eds. Autor de Cr\u00f4nicas contra o totalitarismo; Cuba, a trag\u00e9dia da utopia; Pombas e Gavi\u00f5es; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assisti aos oito cap\u00edtulos da s\u00e9rie do Netflix sobre Trotsky sabendo que se tratava da adapta\u00e7\u00e3o de uma obra liter\u00e1ria e que, portanto, n\u00e3o era rigorosamente hist\u00f3rica quanto aos fatos, frases e condutas. 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