{"id":153389,"date":"2020-08-31T06:22:42","date_gmt":"2020-08-31T10:22:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ocorreionews.com.br\/acervo-correio\/?p=153389"},"modified":"2020-08-31T06:22:42","modified_gmt":"2020-08-31T10:22:42","slug":"coluna-do-percival-e-se-tudo-fosse-de-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ocorreionews.com.br\/acervo-correio\/?p=153389","title":{"rendered":"Coluna do Percival: E se tudo fosse de todos?"},"content":{"rendered":"<p class=\"x_MsoNormal\">N\u00e3o sei como andam as invas\u00f5es de terra em tempos de covid-19. Suponho, por\u00e9m, que tenham sido desativadas. Em dezembro de 2019, o presidente da Rep\u00fablica, num relato de fim de ano, fez um comparativo entre o n\u00famero de invas\u00f5es nos primeiros anos de sucessivas presid\u00eancias. Os n\u00fameros apresentados foram estes:\u00a0FHC\/1995 &#8211; 145;\u00a0\u00a0FHC\/1999 &#8211; 502; Lula\/2003 &#8211; 222; Lula\/2007 &#8211; 298; Dilma\/2011 &#8211; 200; Dilma\/2015 &#8211; 182;\u00a0\u00a0Bolsonaro\/2019 &#8211; 5.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">\n<p class=\"x_MsoNormal\">Os que invadem terras costumam recitar em prosa, verso, e n\u00e3o raro em atos lit\u00fargicos, condena\u00e7\u00f5es \u00e0 propriedade privada. De modo especial repudiam as cercas, vistas como cicatrizes lan\u00e7adas pela gan\u00e2ncia alheia no jardim das del\u00edcias proporcionado por Deus \u00e0 humanidade. Essa condena\u00e7\u00e3o de base ideol\u00f3gica persiste at\u00e9 o assentamento. A partir de ent\u00e3o \u00e9 cada um no seu quadrado. Certa feita fui conhecer quatro assentamentos na regi\u00e3o sul do estado e s\u00f3 em um deles consegui que me deixassem entrar. Estavam certos: em propriedade privada o dono faz as regras de acesso.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">\n<p class=\"x_MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Parece conveniente, portanto, explicitar algumas ideias sobre o direito \u00e0 propriedade privada, que \u00e9 um direito natural reconhecido pelas modernas constitui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. J\u00e1 a posse coletiva dos bens \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o tribal, retomada no socialismo do s\u00e9culo XIX por doutrinadores inconformados com a supera\u00e7\u00e3o do tribalismo pelo regime de propriedade privada. O fracasso do coletivismo, mesmo quando disp\u00f4s dos modernos instrumentos t\u00e9cnicos e do poder pol\u00edtico, d\u00e1 prova recente e cabal disso. Se tudo fosse de todos, &#8220;quem passaria a noite com a vaquinha doente?&#8221; indagava com sensatez, S\u00e3o Boaventura. Com efeito, na propriedade coletiva dos bens, tudo resulta muito mais descuidado porque ningu\u00e9m zela por tais coisas tanto quanto zelaria pelas pr\u00f3prias. Ademais, suprimida a perspectiva de benef\u00edcios ao possuidor, regridem a laboriosidade e o progresso.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">\n<p class=\"x_MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0N\u00e3o s\u00e3o poucos os que, face ao quadro das desigualdades sociais, se interrogam sobre a legitimidade dos bens alheios, numa atitude semelhante \u00e0 do enfermo que se contristasse com a sa\u00fade dos demais. O nome disso \u00e9 inveja e a inveja n\u00e3o produz justi\u00e7a nem solidariedade. A sociedade prospera e se ordena de modo positivo quando os bens particulares produzem todos os frutos poss\u00edveis.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">\n<p class=\"x_MsoBodyText\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Not\u00edcias que me chegam de contatos cubanos informam que o pa\u00eds vive tempo de fome, semelhante ao que sucedeu \u00e0 retirada dos russos com o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A fal\u00eancia da madrinha Venezuela e as derrotas do PT no Brasil acentuaram a escassez, dando origem a apelos por aux\u00edlio humanit\u00e1rio internacional. Desde maio, por\u00e9m, toneladas de alimentos arrecadados nos Estados Unidos por cubanos no ex\u00edlio para fam\u00edlias cubanas na ilha permanecem em lit\u00edgio aduaneiro sem serem distribu\u00eddos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o! A esse ponto chega o dogmatismo.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">\n<p class=\"x_MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Ser sens\u00edvel perante as car\u00eancias alheias, colocar os bens, talentos e sa\u00fade \u00e0 servi\u00e7o dos demais, produzindo todos os frutos poss\u00edveis, gerar riqueza sem avareza, ser justo e combater as injusti\u00e7as, eis algumas das formas pelas quais se pode responder de modo construtivo \u00e0s necessidades sociais. Nicodemos era rico e justo; o epul\u00e3o que desprezava o pobre L\u00e1zaro, rico e injusto. O mal n\u00e3o est\u00e1 em possuir bens, mas em ser possu\u00eddo por eles. Faz\u00ea-los produzir resulta muito mais \u00fatil do que repudi\u00e1-los.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">\n<p class=\"x_MsoNormal\"><i>_______________________________<br \/>\n* Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidad\u00e3o de Porto Alegre, \u00e9 arquiteto, empres\u00e1rio, escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de dezenas de jornais e sites no pa\u00eds. Autor de Cr\u00f4nicas contra o totalitarismo; Cuba, a trag\u00e9dia da utopia; Pombas e Gavi\u00f5es; A Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Integrante do grupo Pensar+.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei como andam as invas\u00f5es de terra em tempos de covid-19. Suponho, por\u00e9m, que tenham sido desativadas. Em dezembro de 2019, o presidente da Rep\u00fablica, num relato de fim de ano, fez um comparativo entre o n\u00famero de invas\u00f5es nos primeiros anos de sucessivas presid\u00eancias. 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