{"id":245176,"date":"2023-07-12T16:14:02","date_gmt":"2023-07-12T20:14:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ocorreionews.com.br\/acervo-correio\/?p=245176"},"modified":"2023-07-12T16:17:41","modified_gmt":"2023-07-12T20:17:41","slug":"cancer-brasileiro-tem-pulmao-operado-fora-do-corpo-e-depois-colocado-de-volta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ocorreionews.com.br\/acervo-correio\/?p=245176","title":{"rendered":"C\u00e2ncer: Brasileiro tem pulm\u00e3o operado fora do corpo e depois colocado de volta"},"content":{"rendered":"<p>O porteiro Oswaldo de Jesus Santos, de 68 anos, trabalhava normalmente num s\u00e1bado de 2020 quando sentiu uma forte dor no peito.<\/p>\n<p>Como o inc\u00f4modo n\u00e3o ia embora, ele resolveu ir ao pronto-socorro no dia seguinte, onde recebeu o\u00a0diagn\u00f3stico de tuberculose.<\/p>\n<p>Sem perceber melhora dos sintomas ap\u00f3s passar pelo tratamento inicial, Santos marcou uma nova consulta, fez exames e recebeu a not\u00edcia: a origem do problema, na verdade, era um\u00a0c\u00e2ncer no pulm\u00e3o.<\/p>\n<p>Natural de Itagib\u00e1, na Bahia, e residente em S\u00e3o Paulo h\u00e1 50 anos, Santos diz que a descoberta do tumor n\u00e3o gerou medo de imediato. \u201cEu logo pensei: se tiver jeito, a gente tira o \u2018bicho\u2019 fora. E, se n\u00e3o tiver, eu vou para o buraco mesmo\u201d, diz, em tom de brincadeira.<\/p>\n<p>Mesmo com a aparente serenidade e abnega\u00e7\u00e3o, Santos n\u00e3o poderia imaginar que, poucos meses ap\u00f3s a not\u00edcia, ele seria um dos \u00fanicos tr\u00eas brasileiros a ser submetido a uma cirurgia inovadora e pouco difundida no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em resumo, o pulm\u00e3o direito dele, que estava acometido pela doen\u00e7a, foi completamente retirado do corpo e operado numa mesa de cirurgia \u00e0 parte, onde as massas tumorais foram removidas.<\/p>\n<p>Poucas horas depois, esse mesmo \u00f3rg\u00e3o foi reimplantado de volta no t\u00f3rax do porteiro \u2014onde continua a funcionar at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Essa opera\u00e7\u00e3o \u2014conhecida como autotransplante\u2014 permitiu que a doen\u00e7a de Santos fosse controlada.<\/p>\n<p>Passados tr\u00eas anos do procedimento, per\u00edodo em que ele continuou a fazer acompanhamento e exames regulares, ainda n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia de reca\u00eddas ou de que o tumor tenha retornado.<\/p>\n<p>Mas esse m\u00e9todo, claro, n\u00e3o est\u00e1 indicado para todos os pacientes com c\u00e2ncer de pulm\u00e3o \u2014e exige uma extensa avalia\u00e7\u00e3o da equipe m\u00e9dica antes de ser realizada.<\/p>\n<h3 id=\"oncologia-e-transplante\">ONCOLOGIA E TRANSPLANTE<\/h3>\n<p>O cirurgi\u00e3o tor\u00e1cico Marcos Samano, da Rede D\u2019Or S\u00e3o Luiz, em S\u00e3o Paulo, foi o respons\u00e1vel pelos primeiros tr\u00eas autotransplantes de pulm\u00e3o no Brasil. Ele \u00e9 professor de cirurgia tor\u00e1cica da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (FMUSP).<\/p>\n<p>Samano conta que leu artigos sobre essa modalidade de cirurgia h\u00e1 cerca de 12 anos. \u201cEla combina duas experi\u00eancias e especialidades m\u00e9dicas distintas: a oncologia e a \u00e1rea de transplantes\u201d, comenta o especialista.<\/p>\n<p>Das tr\u00eas cirurgias realizadas por Samano at\u00e9 o momento, duas aconteceram pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade\u00a0(SUS).<\/p>\n<p>Segundo ele, a decis\u00e3o de apostar nesse tipo de opera\u00e7\u00e3o s\u00f3 veio depois de muito debate entre os especialistas, que se reuniram num comit\u00ea para avaliar os pr\u00f3s e contras de faz\u00ea-la em cada paciente.<\/p>\n<p>Nas tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es, a conclus\u00e3o do grupo foi a de que os indiv\u00edduos (dois homens e uma mulher) apresentavam as condi\u00e7\u00f5es para serem submetidos ao procedimento, que poderia trazer mais benef\u00edcios do que seguir com outros tratamentos-padr\u00e3o, como a quimioterapia e a radioterapia.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o pr\u00f3prio avan\u00e7o dos demais recursos terap\u00eauticos contra o c\u00e2ncer de pulm\u00e3o permitiu que o autotransplante se transformasse em uma possibilidade em certos casos.<\/p>\n<p>\u201cOs medicamentos dispon\u00edveis atualmente permitem reduzir significativamente o tamanho do tumor\u201d, diz Samano.<\/p>\n<p>Com isso, logo ap\u00f3s os ciclos iniciais de terapia, as opera\u00e7\u00f5es se transformam em uma alternativa para lidar com essas massas cancerosas diminutas.<\/p>\n<p>\u201cAntigamente, esses indiv\u00edduos nem eram considerados eleg\u00edveis para cirurgia. Mas isso mudou\u201d, comemora Samano.<\/p>\n<h3 id=\"como-e-o-autotransplante\">COMO \u00c9 O AUTOTRANSPLANTE?<\/h3>\n<p>Tomada a decis\u00e3o de partir para o bisturi, o paciente \u00e9 submetido a uma s\u00e9rie de exames pr\u00e9vios.<\/p>\n<p>Esses testes t\u00eam dois objetivos principais: primeiro, garantir que a pessoa re\u00fane as condi\u00e7\u00f5es de passar pelo procedimento; segundo, ajudar a equipe m\u00e9dica a planejar em detalhes todos os passos da interven\u00e7\u00e3o.<small><\/small><\/p>\n<p>O procedimento em si demora cerca de oito horas. Basicamente, o paciente recebe a anestesia e \u00e9 deitado de lado. A equipe, formada por Samano e outros 11 profissionais, faz a incis\u00e3o pela lateral do corpo, na altura das costelas e abaixo da axila.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s fazer os devidos cortes em camadas mais superficiais \u2014pele, tecidos conjuntivos e m\u00fasculos, por exemplo\u2014, os especialistas alcan\u00e7am o lobo do pulm\u00e3o que est\u00e1 acometido pelo tumor.<\/p>\n<p>Para fazer a retirada, os especialistas separam as tr\u00eas estruturas principais que conectam o pulm\u00e3o com o resto do corpo: uma veia, uma art\u00e9ria e um br\u00f4nquio.<\/p>\n<div>\n<div class=\"ads ads-vertical \"><\/div>\n<\/div>\n<p>O \u00f3rg\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o colocado em uma segunda mesa cir\u00fargica. \u201cAli \u00e9 poss\u00edvel trabalhar muito melhor e \u2018esculpir\u2019 delicadamente as regi\u00f5es comprometidas pelo tumor\u201d, detalha Samano.<\/p>\n<p>Segundo ele, esse processo leva em torno de duas horas \u2014o \u00f3rg\u00e3o, em teoria, poderia permanecer fora do corpo por at\u00e9 seis ou oito horas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de facilitar a tarefa dos m\u00e9dicos, o autotransplante traz outra vantagem. O corpo do paciente segue funcionando normalmente enquanto \u00e9 monitorado pelo restante da equipe: o cora\u00e7\u00e3o bate, o outro lobo do pulm\u00e3o troca g\u00e1s carb\u00f4nico por oxig\u00eanio, e assim por diante.<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel realizar a interven\u00e7\u00e3o pelo t\u00f3rax, mas a margem de seguran\u00e7a \u00e9 menor e precisamos lidar com poss\u00edveis sangramentos imprevistos\u201d, acrescenta o cirurgi\u00e3o tor\u00e1cico.<\/p>\n<p>Com o lobo do pulm\u00e3o \u201cesculpido\u201d e livre dos tumores, ele \u00e9 colocado de volta no lugar de origem pelo mesmo buraco de onde foi retirado. Os m\u00e9dicos costuram as veias, as art\u00e9rias e os br\u00f4nquios, para que a comunica\u00e7\u00e3o com o resto organismo seja novamente restabelecida.<\/p>\n<h3 id=\"pulmao-novo\">PULM\u00c3O \u2018NOVO\u2019<\/h3>\n<p>O autotransplante de Santos aconteceu em setembro de 2020. Ele foi internado num domingo \u00e0 noite e passou pela cirurgia numa segunda-feira pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>Samano destaca que, como o \u00f3rg\u00e3o pertence ao pr\u00f3prio indiv\u00edduo, n\u00e3o h\u00e1 risco de rejei\u00e7\u00e3o pelo organismo. Com isso, o paciente n\u00e3o precisa tomar rem\u00e9dios mais fortes, que suprimem a a\u00e7\u00e3o do sistema imunol\u00f3gico.<\/p>\n<p>\u201cO p\u00f3s-operat\u00f3rio \u00e9 convencional, com controle da dor e acompanhamento do quadro, pois h\u00e1 um risco de trombose pulmonar ou outras complica\u00e7\u00f5es\u201d, descreve Samano.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Santos, ali\u00e1s, teve uma reca\u00edda e precisou ficar alguns dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) antes de ser liberado.<\/p>\n<p>Nos outros dois pacientes, esse cuidado mais intensivo nem foi necess\u00e1rio, segundo o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Um deles, que passou pelo procedimento em 2023 no Hospital S\u00e3o Luiz Itaim, mas preferiu n\u00e3o ser identificado pela reportagem, voltou aos compromissos profissionais e praticou atividade f\u00edsica duas semanas ap\u00f3s ter sido submetido ao autotransplante.<\/p>\n<p>\u201cNo momento, nenhum dos tr\u00eas indiv\u00edduos t\u00eam qualquer evid\u00eancia de que o tumor voltou\u201d, informa Samano.<\/p>\n<p>Para o cirurgi\u00e3o, essas experi\u00eancias revelam como, gra\u00e7as aos avan\u00e7os da medicina, o tratamento do c\u00e2ncer fica cada vez mais personalizado.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s temos que ver o paciente como um indiv\u00edduo \u00fanico, que precisa ser avaliado para receber o melhor tratamento espec\u00edfico para o caso dele\u201d, acredita.<\/p>\n<p>Passados quase tr\u00eas anos do autotransplante, Santos continua a fazer um acompanhamento m\u00e9dico a cada tr\u00eas meses e toma um comprimido di\u00e1rio para garantir uma boa respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Questionado pela BBC News Brasil como se sente ap\u00f3s esse per\u00edodo \u2014e como foi passar por um procedimento praticamente in\u00e9dito no pa\u00eds\u2014, ele respondeu sem pestanejar.<\/p>\n<p>\u201cSe eu n\u00e3o fizesse a cirurgia, ia morrer. Se fizesse e desse errado, ia morrer do mesmo jeito. Ent\u00e3o aceitei o procedimento numa boa\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201cE gra\u00e7as a Deus estou vivo para contar hist\u00f3ria at\u00e9 hoje\u201d, completa.<\/p>\n<p>folhapress<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O porteiro Oswaldo de Jesus Santos, de 68 anos, trabalhava normalmente num s\u00e1bado de 2020 quando sentiu uma forte dor no peito. Como o inc\u00f4modo n\u00e3o ia embora, ele resolveu ir ao pronto-socorro no dia seguinte, onde recebeu o\u00a0diagn\u00f3stico de tuberculose. 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