{"id":32005,"date":"2016-07-21T07:18:40","date_gmt":"2016-07-21T11:18:40","guid":{"rendered":"https:\/\/ocorreionews.com.br\/?p=32005"},"modified":"2016-07-21T07:29:28","modified_gmt":"2016-07-21T11:29:28","slug":"a-licao-do-papeleiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ocorreionews.com.br\/acervo-correio\/?p=32005","title":{"rendered":"A Li\u00e7\u00e3o do Papeleiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A rua Salvador Fran\u00e7a, em Porto Alegre, forma uma rampa acentuada ao se aproximar da avenida Prot\u00e1sio Alves. H\u00e1 poucos dias, em hora de tr\u00e1fego intenso<strong>, <\/strong>eu andava por ali, lomba acima. A lentid\u00e3o do tr\u00e2nsito evidenciava haver, adiante, algum obst\u00e1culo na pista. De fato, pouco al\u00e9m, avistei um carrinho de papeleiro, muito carregado e com volumosos excessos laterais. A carga era t\u00e3o desproporcional que me interessei em ver como se fazia a tra\u00e7\u00e3o de todo aquele peso<strong>. <\/strong>Um cavalo? Dois homens? N\u00e3o. Era um homem s\u00f3, e bem magro. Puxava sua carga caminhando de costas, fazendo o maior uso poss\u00edvel do pr\u00f3prio peso, jogando-se para tr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao ultrapass\u00e1-lo, senti vontade de parar, descer e expressar \u00e0quele\u00a0 ser humano meu reconhecimento ao valor moral que transmitia. Mas seria impratic\u00e1vel em meio ao tr\u00e1fego. Decidi que o faria aqui, narrando o fato e\u00a0 traduzindo em palavras a silenciosa li\u00e7\u00e3o que proporcionava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A mesa do papeleiro \u00e9 pobre e pouca. H\u00e1 frestas em sua insalubre moradia. Agasalho escasso, extenuante o trabalho. N\u00e3o conhece f\u00e9rias e n\u00e3o recebe hora extra. Bem perto de onde mora est\u00e1 o traficante com dinheiro no bolso e correntes de ouro no pesco\u00e7o. Se \u00e9 de justi\u00e7a tratar desigualmente os desiguais, a toler\u00e2ncia e a indulg\u00eancia, em nome da luta de classes, para com os crimes praticados por indiv\u00edduos supostamente pobres s\u00e3o uma ofensa ao papeleiro da Salvador Fran\u00e7a. Todo modo de ver a lei penal como lei do &#8220;opressor&#8221; contra o &#8220;oprimido&#8221;, todo garantismo que assumidamente desprotege a sociedade s\u00e3o ofensivos ao seu trabalho honesto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Assumindo como ganha-p\u00e3o uma tarefa de tra\u00e7\u00e3o animal, ele ensina o quanto a vida, mesmo comprometida diariamente com penosa rotina, pode ser dura sem deixar de ser humana e digna. Enquanto, naquele dia, arrastava sua carga ladeira acima, o papeleiro esbofeteava, sem saber, a face de cada corrupto e de cada corruptor. Ensinava a quantos fazem e aplicam a Lei, que a pobreza a merecer prote\u00e7\u00e3o social e institucional \u00e9 a pobreza do homem bom, nunca &#8211; nunca! &#8211; por si mesma, a pobreza do malfeitor, do traficante, do ladr\u00e3o, do homicida, do estuprador (que at\u00e9 estes voltam rapidamente \u00e0s ruas!). Degenerado \u00e9 degenerado, criminoso \u00e9 criminoso, independentemente do extrato de renda.\u00a0 O lugar de quem vive do crime \u00e9 a cadeia, senhores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por isso, falando em nome de muitos, de poucos ou apenas no meu pr\u00f3prio, gostaria de conhecer a natureza do delito que certos homens da Lei nos imputam, leitor. Ao dar liberdade a quem tem que estar preso, esses falsos justiceiros condenam todos os demais \u00e0 inseguran\u00e7a e \u00e0 restri\u00e7\u00e3o da liberdade. Escrevam o que pensam, senhores! Sustentem suas teses marxistas abertamente nos jornais! Venham \u00e0 luz do dia com suas doutrinas! N\u00e3o se escondam nas p\u00e1ginas dos processos,\u00a0 nas disserta\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas e nos concili\u00e1bulos dos que pensam igual! Afinal, desarmados pelas exig\u00eancias que cercam a posse de qualquer arma, agora estamos encarcerados por grades de prote\u00e7\u00e3o e temos as m\u00e3os contidas pelas algemas da impot\u00eancia c\u00edvica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">________________________________<br \/>\n<em>* Percival Puggina (71), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, \u00e9 arquiteto, empres\u00e1rio e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no pa\u00eds. Autor de Cr\u00f4nicas contra o totalitarismo; Cuba, a trag\u00e9dia da utopia; Pombas e Gavi\u00f5es; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rua Salvador Fran\u00e7a, em Porto Alegre, forma uma rampa acentuada ao se aproximar da avenida Prot\u00e1sio Alves. H\u00e1 poucos dias, em hora de tr\u00e1fego intenso, eu andava por ali, lomba acima. A lentid\u00e3o do tr\u00e2nsito evidenciava haver, adiante, algum obst\u00e1culo na pista. 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