{"id":40505,"date":"2016-11-30T07:22:02","date_gmt":"2016-11-30T10:22:02","guid":{"rendered":"https:\/\/ocorreionews.com.br\/?p=40505"},"modified":"2016-11-30T07:22:02","modified_gmt":"2016-11-30T10:22:02","slug":"morreu-o-grao-senhor-da-senzala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ocorreionews.com.br\/acervo-correio\/?p=40505","title":{"rendered":"Morreu o Gr\u00e3o-Senhor da Senzala"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A &#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221; cubana me despertou tanta curiosidade que um dia, em 2001, resolvi conhecer a ilha dos Castro. Supunha que o comunismo, essa ideologia funesta, estivesse com os dias contados e visitar Cuba era o modo mais econ\u00f4mico de ainda ver de perto uma sociedade sob tal regime. Ao retornar ao Brasil, as pessoas com quem conversava sobre a viagem me pediam que colocasse as observa\u00e7\u00f5es num livro. Assim, voltei a Havana no ano seguinte para colher subs\u00eddios e escrever &#8220;Cuba, a trag\u00e9dia da utopia&#8221;, publicado em 2004. Nessa viagem, ap\u00f3s cometer a imprud\u00eancia de telefonar, contatar e encontrar-me em p\u00fablico com v\u00e1rios dissidentes, pude experimentar e compartilhar, com eles, o temor, a inseguran\u00e7a e a sensa\u00e7\u00e3o de viver sob vigil\u00e2ncia de um Estado totalit\u00e1rio. Fui seguido, filmado e, por via das d\u00favidas, busquei (inutilmente, ali\u00e1s) prote\u00e7\u00e3o da embaixada brasileira, j\u00e1 ent\u00e3o sob orienta\u00e7\u00e3o petista. Continuei acompanhando a vida cubana atrav\u00e9s de correspondentes. Voltei de novo em 2011 atualizando observa\u00e7\u00f5es e dados para uma edi\u00e7\u00e3o ampliada do livro de 2004, em fase final de reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1, em minha biblioteca, dezenas de livros sobre Cuba. Desde os primeiros, escritos ainda em 1960 por jornalistas e membros do mundo acad\u00eamico de esquerda norte-americano, at\u00e9 os mais recentes, de autores que serviram pessoalmente a Fidel Castro como membros do servi\u00e7o secreto ou seguran\u00e7a pessoal. Mas n\u00e3o se engane, leitor. A maior parte da bibliografia \u00e9 laudat\u00f3ria. Visa ao proselitismo. Pretende convencer que o regime \u00e9 muito bom; o resto do mundo \u00e9 que n\u00e3o presta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quem conhece a realidade local sabe que o povo da ilha, faz tempo, jogou a toalha da esperan\u00e7a no tablado da luta cotidiana. Ningu\u00e9m mais acredita no governo, no regime, ou em dias melhores. Ningu\u00e9m, fora da nomenklatura, cr\u00ea que possa haver refei\u00e7\u00f5es satisfat\u00f3rias al\u00e9m da cada vez mais subnutrida libreta de racionamento. Depois de quase seis d\u00e9cadas de semeadura de \u00f3dios aos ianques, o maior anseio e \u00fanico horizonte da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 o retorno deles com suas verdinhas e seus empreendimentos, soprando ares de liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Estes momentos que seguem \u00e0 morte do tirano proporcionaram um novo alento \u00e0 propaganda comunista no Brasil. A mesma m\u00eddia que chorou a elei\u00e7\u00e3o de Trump aproveitou o embalo e ofereceu compungidos e afetuosos necrol\u00f3gios a Fidel. Dir-se-ia que certos jornalistas tinham perdido o vov\u00f4, velhinho bom, que dedicara a vida ao ideal da sociedade igualit\u00e1ria. Uma hipocrisia descomunal! Nestes tempos de internet, todos sabem que Fidel, desde que chegou ao poder, viveu como um nababo; que se apropriou de uma ilha, Cayo Piedra, onde construiu um para\u00edso particular (e n\u00e3o diz que \u00e9 de um amigo dele); que tinha v\u00e1rias resid\u00eancias com diferentes mulheres; que sua despensa sempre foi abastecida das melhores iguarias que o dinheiro pode comprar. Quem descreve com mais detalhes e credibilidade os requintes da cozinha de Fidel Castro (num pa\u00eds com mais de meio s\u00e9culo de racionamento) \u00e9 o irrequieto frei Betto, em &#8220;O Para\u00edso Perdido&#8221;. Nessa obra, cada cap\u00edtulo conta algo de sua atividade como intelectual revolucion\u00e1rio itinerante e dos lautos banquetes com que se nutria para essa faina. Muitos deles, sentado \u00e0 mesa farta do carniceiro do Caribe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ent\u00e3o, leitor, morreu um ditador, serial killer, hip\u00f3crita. Por l\u00f3gica intr\u00ednseca, irrecus\u00e1vel pela raz\u00e3o e pela vis\u00e3o em todas as suas experi\u00eancias, igualitarismo \u00e9 o formato que tomou a escravid\u00e3o no s\u00e9culo XX. Os membros da elite pol\u00edtica do partido \u00fanico s\u00e3o os novos senhores dessas poucas senzalas nacionais ainda remanescentes em desditosas na\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________________________________<br \/>\n<em>* Percival Puggina (71), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, \u00e9 arquiteto, empres\u00e1rio e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no pa\u00eds. Autor de Cr\u00f4nicas contra o totalitarismo; Cuba, a trag\u00e9dia da utopia; Pombas e Gavi\u00f5es; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A &#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221; cubana me despertou tanta curiosidade que um dia, em 2001, resolvi conhecer a ilha dos Castro. Supunha que o comunismo, essa ideologia funesta, estivesse com os dias contados e visitar Cuba era o modo mais econ\u00f4mico de ainda ver de perto uma sociedade sob tal regime. 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