{"id":41535,"date":"2016-12-14T08:18:00","date_gmt":"2016-12-14T11:18:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ocorreionews.com.br\/?p=41535"},"modified":"2016-12-14T08:28:10","modified_gmt":"2016-12-14T11:28:10","slug":"sul-chapadense-toma-posse-como-presidente-da-associacao-dos-magistrado-do-df","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ocorreionews.com.br\/acervo-correio\/?p=41535","title":{"rendered":"Sul Chapadense toma posse como presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Magistrado do DF"},"content":{"rendered":"<p>Tomou posse nessa ter\u00e7a-feira 13, na presid\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o dos Magistrados do Distrito Federal e Territ\u00f3rios (Amagis-DF), para o bi\u00eanio 2016-2018. O Juiz F\u00e1bio Francisco Esteves.<\/p>\n<p>Dr. F\u00e1bio Esteves \u00e9 natural da cidade de Parana\u00edba, com dois anos de idade mudou para Chapad\u00e3o do Sul. Ele vem de uma fam\u00edlia humilde, teve seus estudos em escolas p\u00fablica e, \u00e9 hoje um orgulho para a Chapad\u00e3o do Sul.<\/p>\n<p><strong>Conhe\u00e7a a Hist\u00f3ria do Juiz Federal a hist\u00f3ria do juiz que passou a inf\u00e2ncia na ro\u00e7a, chegou aonde queria e aprendeu a enfrentar o racismo\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/ocorreionews.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/dr-fabio-2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-41537\" src=\"https:\/\/ocorreionews.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/dr-fabio-2-284x300.png\" alt=\"\" width=\"284\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.ocorreionews.com.br\/acervo-correio\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/dr-fabio-2-284x300.png 284w, https:\/\/www.ocorreionews.com.br\/acervo-correio\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/dr-fabio-2.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 284px) 100vw, 284px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>Meu pai era capataz de fazenda e minha m\u00e3e cuidava da casa, dos tr\u00eas filhos pequenos e cozinhava para 50 pe\u00f5es. Sozinha. Nasci em Parana\u00edba, Mato Grosso do Sul. Quando eu tinha 2 anos, minha fam\u00edlia se mudou para Chapad\u00e3o do Sul, onde me criei. Meu pai descende de uma fam\u00edlia que veio da \u00c1frica no tempo da escravid\u00e3o. Fui criado em fazenda, at\u00e9 quase os 12 anos. Sou o mais velho dos quatro irm\u00e3os. Minha educa\u00e7\u00e3o foi rural, multisseriada, v\u00e1rias classes em uma \u00fanica sala. Na inf\u00e2ncia toda fui privado de acesso a tev\u00ea, a energia el\u00e9trica, a informa\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes a gente passava tr\u00eas, quatro meses sem ir \u00e0 cidade. N\u00e3o tenho lembran\u00e7a de haver sofrido preconceito na inf\u00e2ncia. Na escola, s\u00f3 eu e meus irm\u00e3os \u00e9ramos negros. Meu pai era uma pessoa muito querida, muito bem-vista, talvez por isso n\u00e3o tenhamos sentido o preconceito. Depois, no meio urbano, e mais velho, em Bras\u00edlia especialmente, tive a experi\u00eancia do preconceito de cor.<\/p>\n<p>Meu pai era analfabeto, mas fez tudo para que eu e meus tr\u00eas irm\u00e3os estud\u00e1ssemos. Ele dizia: &#8216;Vou dar minha vida, mas meus filhos v\u00e3o estudar&#8217;. Tenho comigo a figura desse homem indestrut\u00edvel. Quando eu tinha 11 anos, ele morreu. Minha m\u00e3e foi trabalhar como empregada dom\u00e9stica. Na adolesc\u00eancia, eu era um aluno muito bom, um expoente. As pessoas se aproximavam muito de mim por causa disso e acabavam ignorando o preconceito. Se existia, era simb\u00f3lico, n\u00e3o era declarado. Vim sentir essa nitidez aqui em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Aos 15 anos, decidi que queria ser juiz. Passei no vestibular de uma universidade p\u00fablica em Parana\u00edba, a cidade onde nasci e para onde voltei. A partir desse momento come\u00e7ou a ser muito forte a quest\u00e3o da negritude. Havia dois negros na minha turma de faculdade. Na universidade inteira, n\u00e3o passavam de cinco.<\/p>\n<p>A\u00ed aconteceu um epis\u00f3dio que me marcou. Eu era um aluno questionador, gostava de provocar reflex\u00f5es em sala de aula. Havia dois anos eu tinha aula com um professor que reiteradamente protelava a resposta a perguntas que eu fazia. Naquele dia, me zanguei um pouco. &#8216;Olha, professor, tenho uma quantidade enorme de assuntos que o senhor protelou para a gente tratar depois. Quando eles ser\u00e3o tratados?&#8217;. Ele ficou furioso comigo, furioso, furioso. Ent\u00e3o ele disse para todo mundo em sala de aula: &#8216;Ainda vou descobrir quem cortou o rabo do macaco&#8217;.<\/p>\n<p>Eu era muito imaturo na \u00e9poca, tinha 19 anos. Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi a de tentar compreender a express\u00e3o. Porque eu sempre fui muito sereno, muito tranquilo. N\u00e3o reagi, n\u00e3o respondi, n\u00e3o quis desviar o foco da quest\u00e3o. Meus amigos ficaram irritados, nervosos com o professor e eu disse a eles que iria tomar provid\u00eancias posteriormente e acabei n\u00e3o fazendo nada. Eu n\u00e3o tinha maturidade para compreender o que significava aquilo.<\/p>\n<p>Foi um aprendizado muito grande para a constru\u00e7\u00e3o da minha identidade. Embora nunca tenha rejeitado a identidade negra, a intensidade dela apareceu ali. A partir daquele momento, passei a buscar minhas ra\u00edzes. Foi quando passei a perceber que eu era minoria nos espa\u00e7os em que estava. Meus valores passaram a ser outros, A forma de me posicionar passou a ser outra e a forma de construir sonhos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Terminei a universidade e vim para Bras\u00edlia. Cheguei no final de 2003. Havia passado no concurso do Banco do Brasil. Na minha ag\u00eancia eu era o \u00fanico negro num universo de 35 funcion\u00e1rios. Ao mesmo tempo, estudava para o concurso da magistratura. Na minha turma, eram 75 alunos ou mais e eu era o \u00fanico negro.<\/p>\n<p>Quantos magistrados negros temos nesse tribunal? N\u00e3o passam de cinco, eu conhe\u00e7o tr\u00eas e isso num universo de 300 magistrados. Sou professor da UDF. S\u00e3o 158 professores, s\u00e3o poucos os negros. Em cada turma minha tem 70 alunos, dos quais dois ou tr\u00eas s\u00e3o negros.<\/p>\n<p><strong>&#8220;\u00c9 um neguinho que vai julgar&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Certa vez eu estava num j\u00fari ouvindo uma testemunha. Ela era m\u00e3e da v\u00edtima e sogra do acusado. Perguntei a ela o que havia ocorrido. E ela me respondeu: &#8216;Eu bem que disse: &#8216;Filha, n\u00e3o se envolva com preto que d\u00e1 nisso&#8221;. Todo mundo no tribunal ficou meio pasmo, mas ela n\u00e3o percebeu o que havia dito. Fiz uma pausa, foi inevit\u00e1vel. Parei um pouco para digerir aquilo e continuei o interrogat\u00f3rio. Ao final, todos vieram me perguntar por que eu n\u00e3o havia tomado nenhuma atitude. N\u00e3o cabia. Mas, nesse momento, me chamou uma certa aten\u00e7\u00e3o a forma de eu me p\u00f4r na sociedade. Sou magistrado, sou professor, sou acad\u00eamico [o juiz faz mestrado em direito], estou inserido em diversos meios. E tenho que responder a essa quest\u00e3o da cor.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes procuro relevar muito as coisas. Logo que fui empossado, fui julgar um crime de racismo. Meu irm\u00e3o veio assistir \u00e0 audi\u00eancia. Era uma inj\u00faria que tinha conte\u00fado racista. Numa briga entre duas senhoras vizinhas, uma chamou a outra de negra. A sala estava muito cheia e meu irm\u00e3o ficou do lado de fora, com um amigo, me esperando. O advogado da acusada entrou na sala, pegou o processo, olhou, perguntou a que horas ia come\u00e7ar a audi\u00eancia, e saiu da sala. Fechou a porta, virou-se para o assistente dele e disse: &#8216;Estamos ferrados, \u00e9 um neguinho que vai julgar&#8217;. O amigo do meu irm\u00e3o n\u00e3o se conteve: &#8216;Este aqui \u00e9 o irm\u00e3o dele&#8217;. O advogado simplesmente sumiu, n\u00e3o apareceu na audi\u00eancia e n\u00e3o apareceu mais no processo.<\/p>\n<p>Quem sente \u00e9 que sabe que o preconceito existe. N\u00e3o gosto de defesa de guetos, mas gosto que minha identidade seja respeitada como qualquer outra. N\u00e3o estou dizendo que o negro deve ser respeitado porque \u00e9 coitadinho. N\u00e3o estou dizendo que deve ser respeitado porque \u00e9 marginalizado socialmente. Estou dizendo que negros t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de alcan\u00e7ar determinados postos sociais porque s\u00e3o pessoas humanas. N\u00e3o \u00e9 a cor que vai faz\u00ea-lo pior ou melhor do que ningu\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Foi um pacto muito forte&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Minha m\u00e3e sofreu muito com a minha escolha. Ela tinha medo de me ver sofrer. Era um tormento para ela. Com 17 anos, eu disse: &#8216;M\u00e3e, vou embora de casa. Vou fazer cursinho para fazer direito.&#8217; Ela quase teve um ataque. Quando meu pai faleceu, acabei assumindo muito a casa. Mas eu tinha meu sonho. Me transferi pra Parana\u00edba. Quando vim pra Bras\u00edlia, ela percebeu que n\u00e3o havia mais possibilidade de que eu voltasse atr\u00e1s. E a\u00ed ela ficou doente. Eu trabalhava de dia, estudava \u00e0 noite e me preparava para o concurso nos finais de semana.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive problema emocional, mas a minha m\u00e3e teve todos. Desenvolveu uma gastrite nervosa, que virou \u00falcera, que perfurou o est\u00f4mago, deu hemorragia, depois descobri u que estava com anemia cr\u00f4nica, teve que tirar o \u00fatero porque estava com mioma, tudo de cunho emocional. Ela tinha um humor pesado, sofria muito, n\u00e3o sa\u00eda de casa. Ela sabia que minhas condi\u00e7\u00f5es em Bras\u00edlia eram hostis, que eu tinha que passar semanas sem comer carne. Isso para ela era muito complicado.<\/p>\n<p>No finalzinho de 2006 fui aprovado no concurso [para magistrado]. Todo o sofrimento e as doen\u00e7as de minha m\u00e3e acabaram. Mas a vida dela continua exatamente a mesma. Ela \u00e9 servidora p\u00fablica, \u00e9 lavadeira numa creche. De jeito nenhum quer parar de trabalhar. N\u00e3o quer sair do lugar de onde est\u00e1. S\u00f3 sai para viajar comigo. Parece que o melhor rem\u00e9dio para a sa\u00fade dela foi minha aprova\u00e7\u00e3o no concurso.<\/p>\n<p>Foi um pacto muito forte o que a gente fez, mesmo sem saber. Ela ia suportar minha dist\u00e2ncia para que eu pudesse, em dois anos e meio, tempo recorde, ser aprovado no concurso e num lugar que nem de longe eu sonhava, ser juiz na capital federal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tomou posse nessa ter\u00e7a-feira 13, na presid\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o dos Magistrados do Distrito Federal e Territ\u00f3rios (Amagis-DF), para o bi\u00eanio 2016-2018. O Juiz F\u00e1bio Francisco Esteves. Dr. F\u00e1bio Esteves \u00e9 natural da cidade de Parana\u00edba, com dois anos de idade mudou para Chapad\u00e3o do Sul. 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