{"id":99033,"date":"2018-10-17T13:52:02","date_gmt":"2018-10-17T17:52:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ocorreionews.com.br\/?p=99033"},"modified":"2018-10-17T13:52:02","modified_gmt":"2018-10-17T17:52:02","slug":"o-frigorifico-que-produz-carne-de-frango-sem-matar-uma-ave","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ocorreionews.com.br\/acervo-correio\/?p=99033","title":{"rendered":"O frigor\u00edfico que produz carne de frango sem matar uma ave"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">H\u00e1 uma crise iminente diante do crescente apetite por carne no mundo. Ser\u00e1 que um frango que cisca em uma fazenda em S\u00e3o Francisco pode ser a solu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Em 1931, Winston Churchill previu que um dia a ra\u00e7a humana \u201cescaparia do absurdo de criar uma galinha inteira para comer o peito ou a asa, produzindo essas partes separadamente\u201d.<\/p>\n<p>Oitenta e sete anos depois, esse dia chegou, como descobrimos na Just, empresa de alimentos em S\u00e3o Francisco, nos EUA, onde provamos nuggets de frango fabricados a partir das c\u00e9lulas de uma pena de galinha.<\/p>\n<p>O frango \u2013 que tinha gosto de frango \u2013 ainda estava vivo, supostamente ciscando em uma fazenda n\u00e3o muito longe do laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Essa carne n\u00e3o deve ser confundida com os hamb\u00fargueres vegetarianos \u00e0 base de verduras e legumes e outros produtos substitutos de carne que est\u00e3o ganhando popularidade nos supermercados.<\/p>\n<p>N\u00e3o, trata-se de carne real fabricada a partir de c\u00e9lulas animais. Elas s\u00e3o chamadas de diversas formas: carne sint\u00e9tica, in vitro, cultivada em laborat\u00f3rio ou at\u00e9 mesmo \u201climpa\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o necess\u00e1rios cerca de dois dias para produzir um nugget de frango em um pequeno biorreator, usando uma prote\u00edna para estimular as c\u00e9lulas a se multiplicarem, algum tipo de suporte para dar estrutura ao produto e um meio de cultura \u2013 ou desenvolvimento \u2013 para alimentar a carne conforme ela se desenvolve.<\/p>\n<p>O resultado ainda n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel comercialmente em nenhum lugar do planeta, mas o presidente-executivo da Just, Josh Tetrick, diz que estar\u00e1 no card\u00e1pio em alguns restaurantes at\u00e9 o fim deste ano.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s fazemos coisas como ovos, sorvete ou manteiga de plantas e fazemos carne apenas a partir de carne. Voc\u00ea simplesmente n\u00e3o precisa matar o animal\u201d, explica Tetrick.<\/p>\n<p>N\u00f3s provamos e os resultados foram impressionantes. A pele era crocante e a carne, saborosa, embora a textura interna fosse um pouco mais macia do que a de um nugget do McDonald\u2019s ou do KFC, por exemplo.<\/p>\n<p>Tetrick e outros empres\u00e1rios que trabalham com \u201ccarne celular\u201d dizem que querem impedir o abate de animais e proteger o meio ambiente da degrada\u00e7\u00e3o da pecu\u00e1ria intensiva industrial.<\/p>\n<p>Eles afirmam estar resolvendo o problema de como alimentar a crescente popula\u00e7\u00e3o sem destruir o planeta, ressaltando que sua carne n\u00e3o \u00e9 geneticamente modificada e n\u00e3o requer antibi\u00f3ticos para crescer.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) diz que a cria\u00e7\u00e3o de animais para a alimenta\u00e7\u00e3o humana \u00e9 uma das principais causas do aquecimento global e da polui\u00e7\u00e3o do ar e da \u00e1gua. Mesmo que a ind\u00fastria pecu\u00e1ria convencional se esforce para se tornar mais eficiente e sustent\u00e1vel, muitos duvidam que ser\u00e1 capaz de acompanhar o crescente apetite global por prote\u00edna.<\/p>\n<p>Abatemos 70 bilh\u00f5es de animais por ano para alimentar sete bilh\u00f5es de pessoas, destaca Uma Valeti, cardiologista que fundou a Memphis Meats, empresa de carnes fabricadas a partir de c\u00e9lulas, na Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p>Segundo ele, a demanda global por carne est\u00e1 dobrando, \u00e0 medida que mais pessoas saem da pobreza. Nesse ritmo, acrescenta, a humanidade n\u00e3o conseguir\u00e1 criar gado e frango suficientes para saciar o apetite de nove bilh\u00f5es de pessoas at\u00e9 2050.<\/p>\n<p>\u201cAssim, podemos literalmente cultivar carne vermelha, aves ou frutos do mar diretamente dessas c\u00e9lulas animais\u201d, diz Valeti.<\/p>\n<p>Muitos americanos afirmam que est\u00e3o comendo menos carne, mas dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos sugerem que o consumidor m\u00e9dio ainda vai ingerir mais de 100 quilos de carne vermelha e frango neste ano \u2013 cerca de 20 quilos a mais do que consumiam nos anos 1970.<\/p>\n<p>O cientista holand\u00eas Mark Post \u00e9 um dos pioneiros da agricultura celular \u2013 seu primeiro hamb\u00farguer produzido em laborat\u00f3rio, em 2013, custou US$ 300 mil.<\/p>\n<p>Nenhuma empresa ampliou ainda a produ\u00e7\u00e3o para servir comercialmente um hamb\u00farguer feito a partir de c\u00e9lulas, mas Post estima que, se come\u00e7asse a produzir seus hamb\u00fargueres em massa, poderia reduzir o custo de produ\u00e7\u00e3o para cerca de US$ 10 cada.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 claro que ainda \u00e9 muito alto\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Se a Just conseguir fabricar nuggets de frango suficientes para vender neste ano, \u00e9 improv\u00e1vel que seja em um restaurante americano, pois o governo dos EUA ainda est\u00e1 decidindo como proceder.<\/p>\n<p>A maioria dos alimentos no pa\u00eds \u00e9 regulada pela Administra\u00e7\u00e3o de Alimentos e Medicamentos (FDA, na sigla em ingl\u00eas). Mas alguns \u2013 principalmente a carne produzida convencionalmente \u2013 s\u00e3o controlados pelo Departamento de Agricultura (USDA, na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se voc\u00ea compra uma pizza congelada nos EUA, o USDA \u00e9 respons\u00e1vel pela de pepperoni e o FDA, pela de queijo.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 v\u00e1rios pa\u00edses na \u00c1sia e na Europa com os quais estamos conversando\u201d, diz Tetrick.<\/p>\n<p>Segundo ele, \u201ch\u00e1 uma falta de clareza\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o nos EUA, enquanto o USDA e o FDA realizam audi\u00eancias p\u00fablicas sobre o tema.<\/p>\n<p>\u201cAcho que os pa\u00edses querem assumir essa lideran\u00e7a. Seja pela escassez de alimentos, por quest\u00f5es de sustentabilidade ou apenas pelo desejo de construir uma economia inteiramente nova, eles querem assumir essa lideran\u00e7a\u201d, disse Tetrick.<\/p>\n<p>O objetivo final \u00e9 levar a \u201ccarne celular\u201d do laborat\u00f3rio para grandes f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>Existem atualmente dezenas de empresas que atuam nessa \u00e1rea e est\u00e3o atraindo investidores de capital de risco do Vale do Sil\u00edcio e de outras regi\u00f5es. Bilion\u00e1rios como Bill Gates e Richard Branson est\u00e3o entre aqueles que investiram dinheiro na tecnologia.<\/p>\n<p>O produto tamb\u00e9m conta com um benfeitor mais surpreendente: a Tyson Foods, que investiu uma quantia n\u00e3o revelada na Memphis Meats.<\/p>\n<p>A Tyson \u00e9 a maior processadora de carnes dos EUA \u2013 s\u00e3o cerca de 424 mil su\u00ednos, 130 mil vacas e 35 milh\u00f5es de frangos processados por semana.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por que a companhia estaria investindo em \u201ccarne celular\u201d?<\/p>\n<p>Ela decidiu \u201cdeixar de ser uma empresa de carne para ser uma empresa de prote\u00edna\u201d, diz Tom Mastrobuoni, diretor financeiro da Tyson Ventures, bra\u00e7o de capital de risco da Tyson.<\/p>\n<p>\u201cTomamos a decis\u00e3o consciente de que seremos a maior empresa de prote\u00ednas\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A tecnologia de ponta do Vale do Sil\u00edcio pode ser sin\u00f4nimo de um esp\u00edrito liberal e empreendedor, mas os EUA ainda s\u00e3o um pa\u00eds onde a tradi\u00e7\u00e3o fala alto.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o dos Pecuaristas tem um lobby forte e n\u00e3o h\u00e1 nenhum s\u00edmbolo mais venerado ou romantizado na hist\u00f3ria do pa\u00eds do que a figura do caub\u00f3i.<\/p>\n<p>E, assim, os fazendeiros do Meio-Oeste est\u00e3o entrando no debate sobre como este novo produto ser\u00e1 comercializado \u2013 como carne limpa, carne celular, carne livre de abate, prote\u00edna \u00e9tica ou apenas carne?<\/p>\n<p>Em seu rancho em Ozarks, regi\u00e3o montanhosa que se estende do Missouri ao Arkansas, Kalena e Billy Bruce alimentam seu rebanho de gado Black Angus, com a ajuda da filha de quatro anos, Willa.<\/p>\n<p>\u201cAcho que precisa ser rotulado propriamente \u2013 como prote\u00edna produzida em laborat\u00f3rio\u201d, opina Billy Bruce.<\/p>\n<p>\u201cQuando penso em carne, penso no que est\u00e1 atr\u00e1s de n\u00f3s, um animal vivo que respira.\u201d<\/p>\n<p>O estado do Missouri concorda. A pedido dos agricultores, os legisladores determinaram que o r\u00f3tulo de carne s\u00f3 pode ser aplicado ao produto do gado. \u00c9 um indicio de que o rompimento com a agricultura tradicional pode estar a caminho.<\/p>\n<p>\u201cDo ponto de vista da transpar\u00eancia para os consumidores, para que saibam o que est\u00e3o comprando e dando para suas fam\u00edlias comerem, achamos que precisa ser chamado de algo diferente\u201d, diz Kalena Bruce.<\/p>\n<p>Lia Biondo, diretora de pol\u00edticas de expans\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o de pecuaristas dos EUA, com sede em Washington, diz que espera que a lei do Missouri possa ser reproduzida em outros Estados.<\/p>\n<p>\u201cVamos deixar que essas empresas decidam como chamar seus produtos, desde que n\u00e3o chamem de carne\u201d, diz Biondo.<\/p>\n<p>Mas, em todo caso, ser\u00e1 que algu\u00e9m vai realmente comer esses produtos?<\/p>\n<p>Frequentadores do Lamberts, restaurante tradicional do Meio-Oeste em Ozark, no Missouri, ter\u00e3o que ser convencidos.<\/p>\n<p>\u201cA carne deve ser criada em uma fazenda, nos campos\u201d, declara Jerry Kimrey, trabalhador da constru\u00e7\u00e3o civil de Lebanon, no Missouri.<\/p>\n<p>A professora Ashley Pospisil, tamb\u00e9m de Lebanon, diz que prefere n\u00e3o comer carne \u00e0 base de c\u00e9lulas.<\/p>\n<p>\u201cEu gosto de saber de onde a carne veio, que \u00e9 natural e n\u00e3o foi processada em laborat\u00f3rio\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>Linda Hilburn, que est\u00e1 comendo um bife antes de ir para casa em Guthrie, em Oklahoma, concorda:<\/p>\n<p>\u201cTem algo na cria\u00e7\u00e3o do homem que me assusta. S\u00f3 causamos destrui\u00e7\u00e3o aqui. Eu meio que gosto da ideia da cria\u00e7\u00e3o de Deus.\u201d<\/p>\n<p>Enquanto Hilburn est\u00e1 longe de ser a \u00fanica a ter um p\u00e9 atr\u00e1s com a \u201ccomida Frankenstein\u201d, como os cr\u00edticos a rotularam, Josh Tetrick insiste que a carne feita a partir de c\u00e9lulas \u00e9 totalmente livre das muitas doen\u00e7as animais que afetam a produ\u00e7\u00e3o tradicional de carne.<\/p>\n<p>E ele est\u00e1 apostando na experi\u00eancia humana a favor do progresso.<\/p>\n<p>\u201cNo fim das contas, se voc\u00ea est\u00e1 falando do avan\u00e7o do picador de gelo para a geladeira ou da matan\u00e7a de baleias para usar seu \u00f3leo em lamparinas at\u00e9 as l\u00e2mpadas incandescentes\u2026 mesmo que as pessoas associassem as l\u00e2mpadas ao diabo\u2026 a humanidade conseguiu abra\u00e7ar algo novo.\u201d<\/p>\n<p>\u201cIsso sempre acontece e, se eu tivesse que apostar, \u00e9 o que vai acontecer em rela\u00e7\u00e3o a isso tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma crise iminente diante do crescente apetite por carne no mundo. 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