*AVISO: esta reportagem trata de assuntos sensíveis e ocorrências relacionadas à saúde mental. Se, de algum modo, você se sensibilizar com este conteúdo, procure ajuda
A depressão atinge 36 em cada 100 trabalhadores rurais do Brasil, acima da média da população geral, de 15%. Pelo menos 9 milhões de pessoas que trabalham no campo desenvolvem algum tipo de problema de saúde mental.
Os dados estão no levantamento ‘Saúde Mental no Agronegócio: uma crise silenciosa’, feito pela Great People Mental Health, com base em revisão de literatura especializada, dados epidemiológicos e estatísticas oficiais de sistemas de saúde e de organização do trabalho.
Em muitas situações, o desfecho é o mais trágico, levando a pessoa a atentar contra a própria vida. O agronegócio concentra taxas de suicídio que superam a média nacional.
Ocorrências de suicídio na população geral e rural
| Ano | Agropecuária (por 100 mil habitantes | Média Nacional (por 100 mil habitantes) |
| 2007 | 16,6 | 8,9 |
| 2011 | 18,6 | 9,7 |
| 2015 | 20,5 | 10,5 |
“Os dados são inequívocos: trabalhadores rurais adoecem e morrem em consequência de pressões que vão muito além da sua lavoura”, conclui o estudo.
O trabalho revela que o “adoecimento mental” da população rural está ligado a pelo menos nove causas, chamadas de “estressores ocupacionais”.
- Sobrecarga de trabalho: excesso de tarefas e tempo reduzido para recuperação;
- Insegurança: incerteza sobre a permanência na atividade;
- Legislação: normas “desconectadas” da realidade do campo;
- Isolamento físico e social: distância de centros urbanos, serviço e de rede de apoio;
- Pressão financeira: dívidas, restrição de crédito e variação de custos de produção;
- Conflitos familiares: relacionados a decisões e divisão de trabalho;
- Sucessão: incerteza com o futuro do negócio na passagem para os filhos;
- Adversidades: clima extremo, pragas e perdas de safra;
- Tradição x tecnologia: tensão entre a manutenção de práticas tradicionais e pressão por modernização.
O levantamento menciona ainda a relação entre transtornos de saúde mental e a exposição crônica a produtos químicos usados no campo. Os responsáveis pelo estudo explicam, com base em revisão de literatura, que substâncias podem inibir enzimas e a produção dos chamados neurotransmissores, favorecendo a ocorrência, por exemplo, de depressão.
Entre as principais consequências da alta dos transtornos mentais para o agronegócio, estão o aumento das faltas no trabalho, queda de produtividade, êxodo rural, comprometimento da sucessão e elevados custos de substituição e reposição de mão de obra.
Mulheres, trabalhadores temporários (safristas), produtores integrados à agroindústria e trabalhadores rurais que exercem funções com exposição a produtos químicos estão entre os grupos mais vulneráveis. Entre os jovens, os desafios de saúde emocional se manifestam em uma proporção quatro vezes maior do que entre os que têm mais de 50 anos.
“A saúde mental não é um problema paralelo ao desenvolvimento do setor – é parte constitutiva de sua sustentabilidade. Investir no bem-estar psicológico dos trabalhadores rurais é investir na continuidade da produção e na fixação das famílias no campo”, avalia a Great People Mental Health.
Se o problema avança e está cada vez mais alarmante, a busca pelo cuidado ainda enfrenta barreiras, explica a consultoria. Em muitos casos, o isolamento limita a capacidade de acesso ao sistema de saúde e a um profissional especializado.
Mas há também questões culturais. Os pesquisadores informam que a saúde mental ainda é tratada como um “tabu” entre trabalhadores rurais, e acaba sendo considerada menos relevante do que a saúde física.
“A cultura de ‘ser forte’ é particularmente arraigada entre homens do campo – o grupo mais afetado pelo suicídio. Esse estigma leva muitos a não buscarem ajuda, mesmo com sintomas graves”, informa o levantamento.
Os responsáveis pela pesquisa destacam que a Norma Regulamentadora 01, que trata de riscos associados ao trabalho, recebeu uma atualização, em 2025, que incluiu a atenção psicossocial dos trabalhadores. E defendem que a resposta ao avanço do adoecimento mental no campo deve ser coordenada com regulação, assistência, ciência e cultura.
Entre os que chamam de “compromissos essenciais” para o atendimento de quem precisa de ajuda, o relatório menciona o reconhecimento da saúde mental como prioridade no agro, programas de apoio adaptados à realidade rural, fiscalização do uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) no manuseio de agrotóxicos, combater estigmas relacionados ao tema e desenvolver políticas públicas que alcancem a realidade do produtor e trabalhador rural.
Por Globo Rural Raphael Salomão
— São Paulo











