O setor exportador de algodão acompanha de perto o ambiente de comércio internacional e os impactos da transição da reforma tributária no mercado doméstico. Como o Brasil se consolidou como líder mundial nas exportações da fibra, a preservação de uma política comercial aberta, previsível e favorável à diversificação de mercados é vital para garantir o fluxo global das vendas. No âmbito interno, a grande prioridade é assegurar a neutralidade da nova estrutura de impostos, evitando o acúmulo de créditos ou custos residuais que acabem incorporados ao preço final, dado que o produto é comercializado em dólar e opera com margens sensíveis no cenário externo.
Embora os preços internacionais atuais apresentem um sinal um pouco mais favorável para a próxima safra e possam estimular a expansão da área plantada, o cenário de margens ainda exige cautela. Tratando-se de uma cadeia altamente intensiva em capital, os juros elevados exercem forte pressão financeira sobre a atividade. A necessidade de investimentos pesados ao longo do ciclo produtivo, combinada com os níveis de endividamento acumulados em temporadas anteriores de margens apertadas, reforça a urgência de maior previsibilidade macroeconômica e de acesso a crédito compatível para que o custo de capital não limite o potencial de crescimento do setor.
Além dos fatores econômicos e regulatórios, a gestão e a mitigação de riscos climáticos ganham relevância estratégica para assegurar o volume, a qualidade e a previsibilidade nas entregas aos principais mercados consumidores. Embora o foco da associação esteja voltado à comercialização e à exportação, a resiliência de toda a cadeia produtiva é o que consolida a confiabilidade do Brasil como o principal fornecedor mundial de algodão. Essas análises e diretrizes foram detalhadas por Dawid Wajs, presidente da Associação Nacional de Exportadores de Algodão, como parte da série especial “E Agora, Presidente?”, produzida pelo site Notícias Agrícolas com vários setores da agricultura para debater o futuro da atividade no país, considerando que o próximo mandato presidencial abrangerá o horizonte até 2030, marco que engloba diversos pilares globais de desenvolvimento sustentável.
Notícias Agrícolas: Quais são as principais pautas regulatórias e comerciais que a ANEA está acompanhando de perto junto ao governo federal?
Dawid Wajs: Hoje, uma das nossas principais atenções está no ambiente de comércio internacional. O algodão brasileiro se tornou líder mundial nas exportações e chega a mercados cada vez mais diversificados, portanto, qualquer mudança geopolítica, alteração tarifária, barreira comercial ou medida que interfira no fluxo internacional de mercadorias tem impacto direto sobre o setor. Para nós, é fundamental que o Brasil preserve uma política comercial aberta, previsível e capaz de ampliar mercados.
No ambiente doméstico, acompanhamos especialmente a implementação da reforma tributária. O algodão é uma cadeia fortemente exportadora e muito competitiva, mas trabalha com margens que respondem rapidamente às mudanças de custos. Precisamos garantir que a transição para o novo sistema não produza aumento de carga, acúmulo de créditos ou efeitos que acabem sendo incorporados ao custo da produção, da comercialização e da exportação. Competimos no mercado internacional com grandes origens e não temos espaço para ineficiências criadas dentro do país.
NA: De que forma a regulamentação e a transição da reforma tributária devem impactar a competitividade das exportações brasileiras de algodão no mercado internacional?
Dawid Wajs: A preocupação central é preservar a neutralidade das exportações e evitar que a reforma gere custos residuais ao longo da cadeia. O algodão brasileiro é comercializado em um mercado global, em dólar, e o produtor não consegue simplesmente repassar ao comprador internacional um aumento de custo ocorrido no Brasil.
Qualquer encarecimento da produção, da logística ou da comercialização interfere na margem do produtor e, consequentemente, na decisão sobre quanto plantar na safra seguinte. Por isso, mais do que olhar apenas para a tributação no momento da exportação, é necessário observar todo o percurso da fibra até o porto, inclusive o funcionamento dos créditos tributários durante a transição. O Brasil conquistou competitividade internacional com produtividade, escala e profissionalização. A regulamentação precisa preservar essas vantagens.
NA: Diante de um cenário de custos de gestão elevados, o desempenho e os preços internacionais do algodão têm sido suficientes para amortizar as taxas de juros e garantir margens saudáveis ao setor?
Dawid Wajs: O cenário melhorou e os preços atuais do algodão já trazem um sinal mais favorável para a próxima safra, inclusive com possibilidade de estímulo à área plantada. Mas isso não significa que tenhamos hoje uma situação confortável de margens.
Os juros elevados pesam muito sobre uma cadeia intensiva em capital, tanto para o produtor quanto para as tradings. O algodão exige investimento elevado ao longo de todo o ciclo, e o custo financeiro acaba se tornando um componente importante da competitividade. Além disso, parte dos produtores chega a este momento com níveis maiores de endividamento depois de safras de margens mais apertadas.
Portanto, preço é apenas uma parte da equação. Para que o setor continue crescendo de maneira consistente, é importante termos também maior previsibilidade macroeconômica, acesso a crédito em condições compatíveis com a atividade e redução do custo financeiro. O Brasil tem capacidade para continuar ampliando sua participação no mercado mundial, mas precisamos cuidar para que o custo de capital não limite esse potencial.
NA: Quais são os principais pleitos ou demandas da associação voltadas para a adaptação e mitigação de riscos climáticos na cotonicultura?
Dawid Wajs: A ANEA tem como foco principal a comercialização e a exportação do algodão, portanto as pautas diretamente ligadas à produção e à adaptação climática são conduzidas principalmente pelas entidades representativas dos produtores. Isso, no entanto, não significa que o tema esteja distante de nós.
Eventos climáticos afetam volume, qualidade, previsibilidade de entrega e, consequentemente, toda a comercialização da safra. Para uma origem que se tornou a maior exportadora mundial e assumiu compromissos crescentes de fornecimento aos principais mercados consumidores, previsibilidade é cada vez mais importante.
Do ponto de vista da ANEA, defendemos um ambiente que permita ao setor continuar investindo em tecnologia, infraestrutura, gestão de risco e instrumentos capazes de dar segurança à produção e à comercialização. Quanto mais resiliente for a cotonicultura brasileira, maior será também a confiabilidade do Brasil como fornecedor global de algodão.
Ericson Cunha, Notícias Agrícolas
