O agro de Mato Grosso do Sul pode deixar de gastar bilhões de reais com adubo nos próximos anos. A promessa vem de uma tecnologia 100% sul-mato-grossense, desenvolvida pelo professor doutor Renato Lustosa Sobrinho, natural de Cassilândia e docente do Programa de Pós-Graduação em Agronomia – Sustentabilidade na Agricultura, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).
Batizada de Phosphogenesis IA a inovação utiliza inteligência artificial para ajudar as lavouras a aproveitar melhor o fósforo que já está presente no solo, reduzindo a necessidade de novas aplicações de fertilizantes e, consequentemente, os custos de produção agrícola. A iniciativa acaba de ser reconhecida pelo Programa Centelha MS, conquistando apoio financeiro de aproximadamente R$ 140 mil para impulsionar a tecnologia.
A iniciativa transforma conhecimento científico em uma solução para um dos maiores desafios do agronegócio brasileiro: a elevada dependência de fertilizantes e os custos associados à adubação das lavouras. “Se conseguirmos reduzir apenas 20% da adubação fosfatada nas áreas de produção de grãos de Mato Grosso do Sul, a economia para os nossos produtores pode chegar à casa dos bilhões de reais ao longo das safras”, afirma o professor doutor Renato Lustosa.
A tecnologia tem potencial para gerar uma economia de bilhões de reais para o estado ao longo dos anos. Em um país que está entre os maiores consumidores de fertilizantes do mundo, a possibilidade de aproveitar melhor o fósforo já presente no solo representa uma oportunidade econômica de grande importância para os produtores rurais.
Um problema de bilhões escondido no solo
O Brasil é uma potência agrícola, mas depende fortemente de outros países para manter sua produção. Mais de 80% dos fertilizantes utilizados na agricultura brasileira são importados, o que deixa os produtores vulneráveis às oscilações do dólar, aos conflitos internacionais e às mudanças no mercado global. Somente em 2025, o país importou aproximadamente 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes, estabelecendo um recorde histórico, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Mas existe outro problema, menos conhecido, que representa um enorme desafio para a agricultura tropical. Nos solos do Cerrado, comuns em Mato Grosso do Sul e em outras regiões produtoras do Brasil, parte do fósforo aplicado como fertilizante acaba “presa” em compostos associados principalmente ao ferro e ao alumínio. Como consequência, uma parcela desse nutriente permanece no solo em formas pouco disponíveis para as plantas.
Isso significa que, ao longo dos anos, áreas agrícolas podem acumular reservas consideráveis de fósforo que não são facilmente aproveitadas pelas culturas. Mesmo com esse nutriente presente no solo, o produtor precisa continuar investindo em fertilizantes para atender às necessidades das lavouras. “O solo de algumas regiões de Mato Grosso do Sul é como um cofre cheio de fósforo. O que faltava era a chave para acessar esta riqueza”, compara o professor doutor Renato. E é justamente essa chave que a Phosphogenesis IA pretende ajudar a encontrar.
A solução pode estar em microrganismos invisíveis a olho nu
A natureza já possui mecanismos capazes de aumentar o aproveitamento do fósforo presente no solo. Determinadas bactérias e fungos conseguem mobilizar formas pouco disponíveis desse nutriente, favorecendo sua absorção pelas raízes das plantas. Esses microrganismos vêm sendo estudados pela ciência há décadas e alguns já são utilizados na fabricação de bioinsumos agrícolas.
Entretanto, existe um grande desafio: o produto biológico que funciona muito bem em determinada região pode apresentar resultados diferentes em outra propriedade, mesmo quando a cultura agrícola é a mesma. Isso ocorre porque o desempenho dos microrganismos depende de fatores como as características químicas e físicas do solo, as condições climáticas, a cultura plantada e a interação com outros organismos. É nesse ponto que a inteligência artificial entra em cena.
A Phosphogenesis IA está sendo desenvolvida para cruzar essas informações e identificar quais microrganismos apresentam maior potencial de eficiência em diferentes condições agrícolas. Na prática, a plataforma pretende ajudar produtores e profissionais da assistência técnica a escolher soluções biológicas mais adequadas para cada ambiente produtivo, reduzindo a dependência de recomendações genéricas e decisões baseadas em tentativa e erro.
Ao tornar a escolha dos microrganismos mais precisa, a tecnologia busca aumentar a eficiência da adubação fosfatada e permitir que os produtores reduzam os gastos com fertilizantes, preservando a produtividade das lavouras. O diferencial está justamente na combinação de duas áreas que ganham cada vez mais espaço na agricultura moderna: a inteligência artificial e o uso de microrganismos benéficos para as plantas.
Uma startup que reúne pesquisadores, especialistas do agronegócio e consultores científicos de renome
Idealizada pelo professor doutor Renato Lustosa Sobrinho, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), em parceria com uma equipe multidisciplinar que reúne o professor doutor Tiago Zoz, o matemático Bruno Rodrigues de Oliveira, de Chapadão do Sul (MS), e o empresário Bruno Aparecido Fronk, sócio responsável pela área comercial da empresa.
A iniciativa conta ainda com consultores científicos de destaque nacional, entre eles a professora doutora Christiane Paiva, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), e o professor doutor Marcelo Minhoto Teixeira Filho, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A participação desses profissionais fortalece a iniciativa ao reunir conhecimentos em agronomia, microbiologia, fertilidade do solo, matemática, inteligência artificial e desenvolvimento de negócios.
Essa integração permite conectar o conhecimento produzido na pesquisa científica à experiência prática do mercado agrícola, buscando transformar uma solução tecnológica em uma ferramenta acessível aos produtores rurais. A Phosphogenesis atua no segmento conhecido como deeptech, formado por empresas que utilizam conhecimentos científicos avançados para desenvolver tecnologias destinadas à solução de problemas complexos.
O reconhecimento no Programa Centelha MS representa um passo importante para o desenvolvimento completo da plataforma. O apoio financeiro contribuirá para o aprimoramento final do protótipo. A união entre ciência, inteligência artificial e experiência de mercado é um dos principais diferenciais da Phosphogenesis, que pretende levar soluções inovadoras para o campo e contribuir para uma agricultura mais eficiente, competitiva e sustentável.
Professor doutor já participou de outro estudo premiado que aumentou em até 60% a produtividade do milho sob seca
Esta não é a primeira vez que o professor doutor Renato Lustosa Sobrinho ganha destaque internacional por pesquisas envolvendo microrganismos e agricultura. Os cientista também participou de um estudo que investigou a utilização de produtos biológicos para melhorar o desempenho do milho em condições de deficiência hídrica. A pesquisa demonstrou que a resposta das plantas aos microrganismos depende da combinação entre o material genético cultivado e o produto biológico utilizado. Nas condições experimentais avaliadas, algumas combinações proporcionaram aumentos de produtividade de até 60% sob restrição de água.
Os resultados foram publicados em periódico científico internacional e reforçam uma ideia que também está na origem da Phosphogenesis IA: não basta aplicar um produto biológico; é preciso identificar qual solução apresenta maior possibilidade de funcionar em cada condição de cultivo. Essa experiência científica contribuiu para a concepção de uma ferramenta que pretende tornar o uso de microrganismos agrícolas mais eficiente, previsível e adaptado às diferentes realidades de produção.
De Cassilândia para a ciência internacional
Natural de Cassilândia, município localizado na Costa Leste de Mato Grosso do Sul, o professor doutor Renato Lustosa Sobrinho construiu sua trajetória profissional na pesquisa científica e na formação de novos profissionais. Docente da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), ele também mantém atividades de colaboração científica internacional, integrando desde 2019 um grupo de pesquisa da Universidade de Antuérpia, na Bélgica.
Para o professor doutor Renato, o desenvolvimento da Phosphogenesis IA representa mais do que a criação de uma startup. É uma oportunidade de aproximar o conhecimento científico das necessidades reais do setor produtivo. “Queremos mostrar que o interior de Mato Grosso do Sul também forma pesquisadores capazes de desenvolver tecnologia de ponta. Nossa proposta é transformar conhecimento científico em soluções que possam beneficiar os produtores rurais e contribuir para uma agricultura mais eficiente e sustentável”, destaca.
A plataforma está atualmente em fase final de prototipagem, com atividades voltadas ao desenvolvimento tecnológico e à validação de sua aplicação em diferentes condições agrícolas. A iniciativa representa um novo caminho para a utilização de inteligência artificial na agricultura, ao conectar conhecimentos sobre o solo, microbiologia, matemática e produção vegetal para enfrentar um dos principais custos da atividade agrícola.
A Phosphogenesis IA também reforça o papel da ciência produzida por cientistas sul-mato-grossenses na busca por soluções para desafios que ultrapassam as fronteiras do estado. Afinal, parte da solução para diminuir a conta dos fertilizantes pode estar justamente onde o produtor menos imagina: no fósforo que já existe debaixo dos seus pés. Mais informações sobre a iniciativa estão disponíveis em www.phosphogenesis.com.
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