O avanço do biodiesel no Brasil pode representar uma demanda adicional relevante por soja e, ao mesmo tempo, ampliar o processamento do grão dentro do país. A relação entre combustível, óleo vegetal e produção de proteína animal esteve entre os temas discutidos durante a 7ª Biodiesel Week, promovida pela União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), e ganhou dimensão prática durante visita à indústria Binatural.
Na unidade de Formosa/GO, a empresa produz cerca de 200 milhões de litros de biodiesel por ano e, segundo informações apresentadas pela companhia, utiliza entre 80 milhões e 90 milhões de litros de óleo de soja para esse volume. A soja representa aproximadamente 60% das matérias-primas utilizadas pela Binatural, enquanto os outros 40% são compostos por alternativas como óleo de cozinha usado e gordura animal.
A participação da soja, segundo a empresa, é levemente inferior ao padrão que os representantes apontaram como comum no mercado, de aproximadamente 70% de soja e 30% de outras matérias-primas. A estratégia da Binatural, portanto, combina maior participação de resíduos e gorduras animais com o uso do óleo de soja na produção do biocombustível.
A Head de Sustentabilidade e Comunicação Integrada da Binatural, Elaine Carvalho, explicou que a matéria-prima passa por uma etapa de preparação antes de entrar efetivamente na produção do biodiesel. O processo busca retirar impurezas e materiais que não são desejados para garantir a qualidade do óleo utilizado.
Depois dessa preparação, as diferentes matérias-primas são combinadas e estabilizadas antes da produção. Segundo o diretor industrial da Binatural, Luís Carlos da Costa Filho, outro diferencial importante é que o mix de produtos é realizado ainda na etapa de matéria-prima, e não posteriormente no combustível.
O processo completo leva aproximadamente 19 horas entre a entrada da matéria-prima na indústria e a saída do biodiesel. Durante a fabricação, também são gerados coprodutos como glicerina, ácido graxo e borra, parte dos quais é comercializada no mercado interno e outra parcela destinada à exportação, inclusive para a China.
A empresa também trabalha no desenvolvimento de um processo para reduzir a geração desses subprodutos. A proposta apresentada é fazer com que a borra seja transformada em ácido graxo e, posteriormente, que o ácido graxo possa retornar à cadeia produtiva como biodiesel.
Mais biodiesel, mais soja processada
A relação entre o aumento da mistura obrigatória e a demanda por soja apareceu de forma ainda mais direta durante um dos painéis da Biodiesel Week. Segundo uma estimativa apresentada no evento, cada aumento de um ponto percentual na participação do biodiesel no diesel representaria o consumo adicional de aproximadamente 4 milhões de toneladas de soja.
O processamento desse volume também teria efeito sobre a oferta de farelo. A mesma estimativa aponta para a geração de aproximadamente 3 milhões de toneladas adicionais de farelo para cada ponto percentual de aumento na mistura.
A lógica é central para a defesa que o setor faz do biodiesel como uma política que ultrapassa a questão energética. Ao transformar soja em óleo para a produção do biocombustível, o processamento também gera farelo, utilizado na alimentação animal.
O presidente executivo da Ubrabio, Donizete Tokarski, destacou justamente essa conexão entre energia e proteína. Segundo ele, cerca de 35 milhões de toneladas de soja são processadas atualmente em função da cadeia do biodiesel, gerando aproximadamente 28 milhões de toneladas de farelo.
“Cada vez que a gente produz 1 litro de biodiesel, estamos produzindo 4 kg de farelo que se transformam em ração”, afirmou.
Na avaliação do executivo, a expansão dessa cadeia poderia contribuir para reduzir a dependência da exportação de soja em grão e ampliar o processamento dentro do país.
“Nós exportamos mais de 100 milhões de toneladas de soja em grãos. Tudo isso deveria ser processado internamente para gerar mais oportunidade, produzir carne mais barata, gerar mais emprego”, disse.
A discussão também se conecta à própria estratégia de segurança energética defendida pelo setor. Ao elevar a participação do biodiesel, o Brasil não apenas substitui parte do diesel fóssil consumido internamente, mas também cria demanda por uma cadeia que começa na produção agrícola e passa pelo processamento industrial.
Para Tokarski, essa relação é parte da própria característica dos biocombustíveis brasileiros.
“A transição energética não começa no posto de combustível, ela começa no plantio. Todo biocombustível é produzido de uma biomassa. Essa biomassa tem origem no agricultor, na produção agrícola nacional”, afirmou.
Novos mercados podem ampliar essa demanda
O potencial de consumo de matérias-primas, porém, não estaria limitado ao crescimento da mistura obrigatória no diesel rodoviário. Representantes do setor apontaram durante os eventos da Ubrabio uma série de possibilidades para ampliar o uso do biodiesel, incluindo transporte ferroviário, mineração, geração de energia e navegação.
No setor marítimo, representantes da Binatural relataram experiências com motores de grande porte e testes envolvendo biodiesel. A empresa também apresentou uma visita realizada à fabricante de motores Wärtsilä, na Finlândia, onde conheceu uma embarcação capaz de operar com 100% de biodiesel.
A lógica, segundo a apresentação, é utilizar o biodiesel como uma alternativa que possa ser incorporada aos motores existentes sem a necessidade de grandes modificações, ampliando as possibilidades de descarbonização do transporte marítimo.
A empresa também relatou testes com motores utilizados em termelétricas. Em um dos ensaios apresentados, um motor teria funcionado com biodiesel sem alterações e atingido 102% da capacidade de potência, segundo os representantes da Binatural.
Além desses mercados, a expansão dos biocombustíveis também coloca diferentes matérias-primas agrícolas e resíduos no centro da transição energética. Na avaliação do setor, o desafio passa a ser não apenas aumentar o percentual de biodiesel misturado ao diesel, mas ampliar o número de aplicações capazes de consumir esse produto.
Essa possibilidade ganha relevância para a cadeia da soja porque cada nova frente de consumo pode representar maior necessidade de óleo vegetal e, consequentemente, maior processamento do grão. Ao mesmo tempo, a expansão da produção de biodiesel mantém a geração de farelo como um dos principais efeitos econômicos da transformação da soja em combustível.
Guilherme Dorigatti
Notícias Agrícolas
