O próprio banco comunicou a atipicidade: 334 depósitos em espécie fracionados.
Alvo de operação contra fraude tributária no Fisco de São Paulo, N. F. S. L. tem fazenda em Costa Rica. A propriedade rural, na MS-223, foi o único endereço em Mato Grosso do Sul na lista de 47 locais para mandados de busca e apreensão encaminhada pelo MPSP (Ministério Público de São Paulo) para a Justiça.
O relatório da operação aponta que o advogado e, proprietário da fazenda N. F. S. L. “desponta como peça central de um circuito de lavagem”, com movimentação de R$ 12,2 milhões. Conforme a investigação, o advogado é cunhado de André Weiss, preso na operação de ontem.
Weiss foi diretor-geral executivo da Administração Tributária até maio de 2026 e era o “número 3” da Fazenda de São Paulo. Ele era subordinado apenas ao Subsecretário da Receita Estadual e ao Secretário da Fazenda.
A diretoria é responsável pela gestão da arrecadação dos tributos e receitas estaduais, pela fiscalização sobre o adequado cumprimento das obrigações tributárias pelos contribuintes, bem como dos serviços de atendimento ao contribuinte no âmbito estadual.
De acordo com o relatório, embora o advogado declare renda mensal de apenas R$ 18.146,27, o que perfaz, nos doze meses do período examinado, R$ 217.755,24, sua conta no banco movimentou, entre março de 2025 e fevereiro de 2026, R$ 12.246.149,00.
Foram R$ 5.954.971,00 em créditos e R$ 6.291.178,00 em débitos. “Com entradas e saídas praticamente equivalentes, no já conhecido padrão de conta de trânsito”, informa o MP de São Paulo no pedido à Justiça para deflagrar a operação.
Conforme o Ministério Público, o próprio banco comunicou a atipicidade: registrou 334 depósitos em espécie fracionados em caixas eletrônicos (R$ 1.960.850,00).

“Consignando que a fragmentação indica intenção de dificultar a rastreabilidade dos recursos, comportamento não característico de pessoa física, e que a movimentação é incompatível com a capacidade financeira do cliente, com indícios de origem informal — descrição que corresponde, com precisão, à fase de colocação da lavagem de dinheiro”.
Weiss transferiu R$ 200 mil à conta do cunhado. Conforme o MPSP, os recursos circularam por uma teia de empresas.
“O conjunto configura circuito clássico de lavagem — colocação em espécie, ocultação por múltiplas transferências e integração em imóveis e participações —, valendo-se André Weiss do cunhado advogado e de sua estrutura empresarial”, aponta o documento.
Esquema investigado – As diligências são desdobramentos da Operação Ícaro, realizada em agosto de 2025, e buscam aprofundar as investigações sobre uma organização criminosa suspeita de atuar no âmbito da Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo.
São apurados possíveis crimes de organização criminosa, corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro relacionados a procedimentos de ressarcimento do ICMS-ST (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) retido por substituição tributária e de aproveitamento de crédito acumulado.
Segundo as investigações, o grupo teria transformado um mecanismo tributário legítimo em um mercado clandestino, no qual eram negociados não apenas os créditos dos contribuintes, mas também os próprios atos administrativos necessários para seu reconhecimento e liberação. As vantagens indevidas corresponderiam a percentuais dos créditos fiscais, entre 1% e 10% nos episódios investigados.
A estrutura seria dividida em núcleos público e privado. Profissionais particulares captariam grandes contribuintes, negociariam facilidades e repassariam parte dos honorários a agentes públicos, que, por sua vez, interfeririam na fiscalização e na tramitação dos procedimentos, inclusive para centralizá-los, acelerá-los ou deferi-los.
As apurações indicam que o esquema teria alcançado diferentes níveis da administração tributária estadual, desde agentes responsáveis pela execução dos procedimentos até a cúpula da estrutura fazendária. Conforme os elementos reunidos, um dos alvos teria repassado aproximadamente R$ 13,6 milhões ao então delegado regional tributário do Butantã entre 2021 e agosto de 2025.
A investigação reúne informações obtidas por meio de acordo de colaboração premiada, documentos manuscritos com registros de divisão de valores, quebras de sigilos bancário e fiscal, relatórios de inteligência financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), dados extraídos de aparelhos eletrônicos e gravação ambiental submetida a perícia oficial.
A operação é do Gedec (Grupo de Atuação Especial de Repressão à Formação de Cartel e à Lavagem de Dinheiro e de Recuperação de Ativos), braço do Ministério Público.
Ao Campo Grande News, N. F. S. L. afirmou que não teve acesso à decisão até o momento e está constituindo advogado para o processo. Quanto à movimentação financeira, ele relata que “essa informação, da forma que se apresenta, não corresponde com a verdade e será provada nos autos, quando acessado pelos advogados”.
*Fonte: Campo Grande News, Aline dos Santos.
