O g1 teve acesso ao relatório final da Polícia Federal que aponta quais foram as principais negociações envolvendo venda de decisões judiciais por magistrados do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.
A Polícia Federal (PF) concluiu o inquérito da Operação Ultima Ratio, que apura a venda de sentenças por desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS). O relatório da PF aponta que as negociações feitas entre os envolvidos abrangiam “uma vasta gama de propriedades rurais, imóveis urbanos, veículos de luxo e vultosas quantias em dinheiro, muitas vezes utilizadas para ocultar a origem ilícita de recursos provenientes da “venda” de decisões judiciais”.
O g1 teve acesso ao relatório final da investigação que elenca as principais negociações feitas pelos desembargadores em articulação com outros envolvidos, como advogados, conselheiros e filhos dos próprios magistrados.
A PF sugeriu ao MPF a denúncia dos seguintes desembargadores do TJMS por corrupção passiva e/ou lavagem de dinheiro:
- Sideni Soncini Pimentel
- Vladimir Abreu da Silva
- Julio Roberto Siqueira Cardoso
- Alexandre Aguiar Bastos
- Sergio Fernandes Martins
- Divoncir Schreiner Maran
- Marcos José de Brito Rodrigues
➡️🔎A Operação Ultima Ratio foi deflagrada pela PF em outubro de 2024 para investigar indícios de venda de sentenças no TJMS. À época, desembargadores foram afastados das funções. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou movimentações financeiras atípicas dos magistrados. Em um dos cumprimentos de mandados, foram encontrados na casa de um desembargador quase de R$ 3 milhões em espécie.
O g1 entrou em contato com as defesas de todos os desembargadores suspeitos de venda de sentenças, mas, até o momento, recebeu resposta apenas das defesas de Sideni Pimentel e de Rodrigo Pimentel. A defesa de Sideni afirmou não ter tido acesso ao documento. Já a defesa de Rodrigo disse que o pedido da Polícia Federal para denunciá-lo se baseia em fatos que já foram investigados pelo GAECO e arquivados em relação a ele, e acrescentou que busca acesso à íntegra dessa investigação para apresentá-la ao MPF. Não localizamos a defesa de Lydio de Souza e não conseguimos contato com o advogado Jayme Felix.
A assessoria de comunicação do TJMS também foi questionada sobre a finalização do inquérito. Até a última atualização desta reportagem, nenhum retorno foi enviado.
O relatório da PF foi concluído no fim de março deste ano e foi assinado pelo delegado Marcos André Araújo Damato.
Avião e carros de luxo
- Aeronave: propriedade do advogado Rodrigo Pimentel; documentos de abastecimento circulavam entre contas de WhatsApp de desembargadores. Modelo e valor não revelados pelo relatório policial.
- Jaguar E-Pace: comprado por Alexandre Bastos, com R$ 30 mil pagos em espécie. Veículo com variação de R$170 a R$360 mil, conforme ano e modelo, na tabela Fipe.
- Chery Tiggo 8: adquirido por Alexandre Bastos em 2023 por R$ 201.990,00, com indícios de pagamentos em dinheiro.
- Jeep Cherokee: veículo do desembargador Marcos Brito onde foram encontrados R$ 30 mil em espécie no porta-objetos.
Negociações de fazendas
As disputas judiciais e a venda de decisões frequentemente envolviam grandes propriedades rurais em Mato Grosso do Sul:
- Fazenda Santo Antônio (Corumbá-MS): com área de 5,2 mil hectares negociada por R$ 20 milhões. A investigação aponta que a decisão judicial para autorizar sua venda em um inventário foi comprada, com pagamentos superiores a R$ 1 milhão destinados a Renata Pimentel, filha Sideni Soncini Pimentel.
- Fazenda Vai Quem Quer (Corumbá-MS): objeto de uma ação de rescisão contratual de permuta. A decisão favorável à manutenção do contrato teria sido comprada por Lydio de Souza Rodrigues.
- Fazenda Paulicéia (Maracajú-MS): Envolveu a falsificação de escrituras de compra e venda e de hipoteca para manter a propriedade com o grupo ligado ao conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Osmar Jeronymo.
- Fazendas Montanha e San Diego: alvos de disputa judicial em que se apurou a venda de decisões por desembargadores para favorecer clientes do advogado Felix Jayme.
- Fazenda Nova Guaporé (Bodoquena-MS): o juiz Paulo Afonso de Oliveira apresentou uma proposta de compra no valor de R$ 18 milhões, prevendo o pagamento de R$ 3,2 milhões em dinheiro vivo.
Imóveis Urbanos
A Polícia Federal aponta que imóveis urbanos eram utilizados tanto para moradia quanto para ocultação de valores, ou seja, lavagem de dinheiro:
- Casa na Bahia: adquirida pelo desembargador aposentado Julio Cardoso por R$ 2,1 milhões. A investigação aponta lavagem de dinheiro, pois o valor declarado na escritura R$ 1,48 milhão foi inferior ao efetivamente pago para ocultar recursos de propina.
- Apartamento (Campo Grande): Comprado por Julio Cardoso por R$ 350 mil, com pagamentos realizados integralmente em dinheiro em espécie.
- Terrenos em condomínio de luxo (Campo Grande): Julio Cardoso adquiriu um lote por R$ 200 mil em espécie mais um carro usado. O desembargador Alexandre Bastos também comprou um terreno no mesmo condomínio por R$ 230 mil, com parte do pagamento, cerca de R$ 105 mil, feita em dinheiro vivo.
- Apartamento em São Paulo: citado em mensagens de Renata Pimentel sobre a quitação antecipada de financiamento, sem mencionar valores.
Ativos financeiros e títulos falsos
- Dinheiro em espécie: foram apreendidas vultosas quantias, como R$ 2,5 milhões e US$ 55 mil (cerca de R$273 mil na cotação atual) na casa de Julio Cardoso. O uso constante de “dinheiro vivo” para despesas diárias e grandes aquisições é apontado como forte indício de recebimento de propina.
- Notas promissórias falsas: títulos executivos falsificados no valor de mais de R$ 5 milhões foram utilizados em um esquema de estelionato judicial que contou com a conivência de magistrados corrompidos.
Outras negociações
- Gado: notas fiscais registram a venda de 63 cabeças de gado do advogado Rodrigo Pimentel para seu pai, o desembargador Sideni Pimentel.
- Bebidas: mensagens indicam que o advogado Felix Jayme realizava compras de bebidas de alto valor a pedido do desembargador Marcos Brito.
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PF conclui inquérito e pede denúncia de 7 desembargadores por venda de sentenças, em MS — Foto: Arquivo











