A próxima gestão do governo federal terá pela frente o desafio de dar mais segurança para o produtor de feijão planejar a produção e os investimentos. A cultura é essencial para o abastecimento brasileiro, mas enfrenta forte oscilação de preços, riscos climáticos e margens cada vez mais apertadas. Para o presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (IBRAFE), Marcelo Lüders, o setor precisa deixar de ser lembrado apenas em momentos de falta de produto ou de alta dos preços ao consumidor e passar a contar com uma política nacional de longo prazo.
“A principal expectativa é que o feijão seja tratado como uma cultura estratégica para o Brasil, e não apenas lembrado quando falta produto ou quando os preços aumentam ao consumidor”, afirma Lüders.
Na avaliação do presidente do IBRAFE, a agenda do próximo governo deveria integrar crédito, seguro rural, pesquisa, assistência técnica, armazenagem, inteligência de mercado, compras públicas, promoção do consumo e abertura de mercados. O objetivo é criar condições para que o produtor tenha maior segurança para decidir o plantio e realizar investimentos.
Risco começa antes da colheita
Um dos principais problemas apontados pelo setor é a combinação entre risco produtivo e falta de previsibilidade comercial. O produtor precisa decidir quanto e quando plantar sem saber qual será o cenário de preços no momento da colheita.
Além dos custos elevados com fertilizantes, defensivos, energia, máquinas, combustíveis e mão de obra, o feijão apresenta elevada sensibilidade às condições climáticas. Tanto a seca quanto o excesso de chuva podem provocar perdas expressivas, especialmente durante a colheita.
“O maior gargalo está na relação entre risco produtivo e falta de previsibilidade comercial. O produtor toma a decisão de plantar sem saber qual será o preço na colheita”, explica Lüders.
Segundo ele, mesmo quando os preços sobem em períodos de menor oferta, isso não significa necessariamente que o produtor que perdeu produtividade consiga capturar essa valorização. Em anos de boa produção, por outro lado, os preços podem recuar rapidamente e comprometer a renda.
Outro problema é a necessidade de comercializar a produção logo após a colheita, justamente quando a oferta aumenta e os preços tendem a sofrer pressão.
Por isso, o setor defende investimentos em armazenagem, secagem, beneficiamento, classificação e padronização, além de maior acesso a informações sobre área plantada, estoques, preços regionais, importações, exportações e comportamento do consumo.
Crédito e seguro
Para Lüders, não basta anunciar recursos de crédito. É necessário garantir que eles estejam disponíveis no momento adequado e que o produtor consiga efetivamente acessá-los.
Além do custeio, ele aponta como prioridades o financiamento para irrigação, armazenagem, secagem, beneficiamento, máquinas, energia e tecnologias capazes de reduzir os riscos da produção.
Pronaf e Pronamp são considerados fundamentais, mas, segundo o presidente do IBRAFE, o acesso ainda é desigual, especialmente para produtores que não possuem estruturas administrativas sofisticadas.
No seguro rural, a reivindicação é por maior estabilidade no orçamento de subvenção, ampliação da cobertura territorial e da oferta de produtos, atualização de produtividade, custos e níveis de cobertura e redução do tempo entre a ocorrência das perdas, as vistorias e o pagamento das indenizações.
O setor também defende uma evolução dos instrumentos de proteção de renda. Isso porque o seguro agrícola cobre principalmente a perda física da produção, mas não necessariamente protege o agricultor de uma queda acentuada nos preços.
“Precisamos de instrumentos que combinem cobertura de produção e receita, além de mecanismos de garantia de preços mínimos realmente operacionais e atualizados de acordo com os custos”, afirma.
Desafios do clima
As mudanças no comportamento do clima também estão no radar do setor. Para o IBRAFE, a resposta do governo não pode ocorrer somente depois que as perdas já aconteceram.
A entidade defende uma política permanente de adaptação, com atualização do Zoneamento Agrícola de Risco Climático, melhoria das previsões meteorológicas regionais e sistemas de alerta capazes de chegar ao produtor de maneira antecipada e acessível.
Entre os investimentos apontados estão irrigação eficiente, reservação de água, conservação do solo, cobertura vegetal, rotação de culturas, drenagem de áreas sujeitas ao excesso de chuva, desenvolvimento de cultivares mais tolerantes ao calor e à seca e estruturas de secagem e armazenagem.
Lüders destaca, porém, que não existe uma única solução para toda a cadeia.
“A pesquisa deve considerar as diferenças entre regiões e épocas de cultivo. Não existe uma única solução climática para todo o Feijão brasileiro”, afirma.
Tecnologia precisa chegar ao pequeno produtor
Outro ponto considerado estratégico é o aumento da produtividade. Para o presidente do IBRAFE, o desafio não está apenas em desenvolver novas tecnologias, mas em fazer com que elas cheguem ao campo acompanhadas de conhecimento, financiamento e assistência técnica.
Entre as prioridades estão sementes de qualidade, genética, manejo de solo, controle de doenças, mecanização adequada, agricultura de precisão acessível e uso racional de água e insumos.
O fortalecimento da pesquisa pública e de parcerias com universidades, institutos, cooperativas e empresas também é apontado como necessário.
A assistência técnica e a extensão rural aparecem como pontos centrais. Lüders defende ainda unidades demonstrativas, campos de validação e programas coletivos conduzidos por cooperativas e associações.
Para pequenos produtores, segundo ele, o compartilhamento de máquinas, equipamentos, armazenagem, classificação e inteligência de mercado pode tornar tecnologias mais acessíveis.
Comercialização é outro gargalo
A cadeia também precisa avançar em transparência e organização comercial.
O produtor, segundo Lüders, precisa ter acesso a informações confiáveis sobre produção, estoques, qualidade, preços e fluxo de comércio. A falta desses dados aumenta o risco de ciclos de excesso e escassez.
O setor defende ainda avanços em classificação e padronização, rastreabilidade, identificação de origem, contratos mais claros, cooperativismo e comercialização coletiva.
As compras públicas também podem abrir oportunidades, principalmente para a agricultura familiar. No entanto, Lüders ressalta que o acesso a esses mercados exige organização, documentação, planejamento, regularidade de entrega, padrões sanitários e capacidade logística.
Feijão precisa conquistar novos consumidores
Além dos desafios dentro da porteira, o IBRAFE vê espaço para ampliar o consumo e diversificar os mercados.
A estratégia passa pela aproximação do produto com as novas gerações e pela oferta de soluções mais práticas, como feijão cozido, pronto para consumo, porções individuais, farinhas, ingredientes e outros produtos de maior conveniência.
“A redução do tempo disponível para cozinhar exige inovação em produtos práticos”, afirma Lüders.
A entidade também defende a valorização da diversidade de tipos de feijão produzidos no Brasil, incluindo carioca, preto, caupi, vermelho, branco e rajado, além de características como origem, identidade territorial, qualidade e rastreabilidade.
No mercado externo, o setor avalia que o Brasil pode avançar não apenas na exportação de grãos, mas também de ingredientes e produtos de maior valor agregado.
Para Lüders, garantir alimento acessível ao consumidor e assegurar remuneração adequada ao produtor não são objetivos incompatíveis.
“Não existe segurança alimentar duradoura com produtor trabalhando sem rentabilidade”, afirma.
Na visão do IBRAFE, preços artificialmente baixos podem desestimular o plantio, reduzir investimentos e aumentar o risco de falta de produto no futuro.
O equilíbrio deveria ser buscado por meio de aumento sustentável da produtividade, redução de perdas, melhoria logística, estoques reguladores transparentes, crédito adequado e instrumentos de proteção de renda.
O setor também pede cautela com medidas comerciais tomadas de forma repentina. Importações podem ser necessárias em determinadas situações, mas, segundo Lüders, precisam considerar o momento da safra, os estoques e as condições de comercialização do produtor brasileiro.
Prioridades para o próximo presidente
Entre as políticas que deveriam ser mantidas e fortalecidas, o presidente do IBRAFE cita Pronaf, Pronamp, Proagro, Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, Política de Garantia de Preços Mínimos, PAA, PNAE, pesquisa agropecuária pública, assistência técnica e linhas de crédito para armazenagem, irrigação e inovação.
O principal problema, entretanto, estaria na falta de integração entre essas políticas.
“Hoje, crédito, seguro, pesquisa, assistência técnica, irrigação, comercialização e abastecimento ainda operam com pouca coordenação”, avalia.
Para o próximo governo, Lüders defende a implementação do Movimento Pró-Feijão, iniciativa que, segundo ele, já passou por diferentes instâncias e que deveria estabelecer metas, responsabilidades, prazos e acompanhamento permanente.
A proposta central é transformar a cadeia em uma agenda estratégica de Estado, reduzindo a necessidade de respostas emergenciais a cada ciclo de preços ou quebra de produção.
Para o IBRAFE, o desafio do próximo governo é deixar de administrar crises periódicas e construir uma cadeia de feijão mais organizada, tecnológica e capaz de gerar renda no campo, garantir abastecimento, oferecer preços justos ao consumidor e conquistar novos mercados.
Andreia Marques, Notícias Agrícolas
